quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

ESTADO DE SÍTIO





















ESTADO DE SÍTIO

*Ricardo Lacava Bailone

-Conto vencedor do XII Concurso Contos do Tijuco "Eliane Gouveia"


                       No meu buraco me sitio, no leito vazio de meu rio, no meu buraco cândido e vazio, vazio de seres corrosivos e sombrios. O pânico que habita as almas, no mundo lá fora que sinto, retiro-me de forma branda, para ser olvidado no limbo. Enquanto buscas lá fora, satisfação improvável, permita-me que vos diga, amigo, o ego é insaciável. A felicidade está aqui, antes que me esqueça, não no material, mas no interior da cabeça. Quando a flor nasce, já começa a morrer, não deixes que a vida passe, e não volte a dizer. Refugie-se no bem, e o bem alheio lhe tornará, reclusos um ao outro, a parede se erguerá. E foi assim que tentei minha reclusão deste estúpido mundo que pairava sobre meus ombros. Revoltado pacifista assíduo desde os meus catorze anos, colecionava pôsteres de meus ídolos nas paredes de meu cubículo. Minha mãe sempre olhava com ares suspeitos, embora eu soubesse que ela apenas não gostasse que pregasse nada na parede recém-pintada, batalhada com o suor árduo da labuta diária. Deixava-me levar pela luta daqueles que não pensavam somente em si, e assim, aos dezessete anos comecei a engrenar no sistema que girava em torno das críticas desse modo de governo iníquo e desleal, o qual a engrenagem jogava os lucros apenas para um lado da balança. 

Personificava meu estereótipo. Bermudas longas, corrente pendurada no pescoço, boné virado para trás, óculos escuros de um de meus ícones, John Lennon, e sempre uma camisa com uma mensagem subliminar aos opulentos defensores desta egocracia. Possuía meu clã. Clã de animais periféricos, com ideias diferenciadas. E enfatizo que foi na diferença que nasceram as maiores evoluções. Concepções tidas como inaceitáveis e inexequíveis. A normalidade consensual confrontava-se com a normalidade instintiva. Estava farto de tanta exploração, tantas notícias falaciosas, tantas cabeças ignorantes e de má fé. Nas mãos de caranguejos, lamacentos animais coniventes. Corporativistas na malevolência e na divisão dos pró-labores. Pessoas como estas que deixavam o país neste instável e corroído leito que se encontrava, e estas mesmas, ainda tinham a insanidade mental de culpar o mísero funcionário que não pusera as gotas de adoçante em seu café a gosto. 

Inconcluso com os resultados, resolvi que a solução seria minha reclusão. Mas os tempos eram sombrios. Não podíamos nos esconder como anelídeos e assistir tudo cegamente debaixo da terra. Assinavam papéis na calada da noite. Articulavam o executivo, legislativo e judiciário. Escrachavam mentiras na mídia para corromper a ignorante massa – e a débil elite. Retiravam direitos do povo e crucificavam-nos aos próprios interesses. Via meu pai na azáfama feito roda de água para manter o modesto, mas digno lar. Não só ele, mas eu também contribuía. Trabalhava meio período ajudando-o em sua mecânica de automóveis, no puxadinho de minha casa. Na escola, gastava o resto do tempo, entre paqueras, camaradagem e um pouco de estudo. 

Assim, após dois meses olvidados em minha casa, o telefone tocou. Vesti aquela peita onde nas costas a letra maiúscula “A” sobrepunha-se a “O”. Anarquia e Ordem. Saí para clamar minha independência. A juventude ainda tinha a vida pela frente. Minha testosterona clamava pela vivacidade, além do que minha menina estaria lá. As ruas estavam cheias, a multidão aglomerava-se cada vez mais. Gritos de ordem, baterias, vontade de mudança. Consolidava minhas ideias com as alheias, tornando aquela presença ainda maior. Um espetáculo humano. Pensei, ainda existe esperança! Vi de longe minha garota. Mesmas roupas, mesmos estilos. Também bravejava palavras de ordem, como eu. Fui me aproximando, mas o barulho era ensurdecedor, e o anelo pela metamorfose social e coletiva, demasiado. Uns empurravam os outros, o espaço estava cada vez mais exíguo. Ela olhou para mim. Sorriu. Nos fitamos por um momento. Fui empurrado fortemente contra um poste, e quando me dei por si, ela já não estava mais ali. O desespero se acentuou. Pânico nos olhares. Sem medo e sem dó. A ordem estava dada. Já não mais a via. Todos corriam. E eu decidi fazer o mesmo, procurando um lugar seguro. 

Barricada, tiros de bala de borracha, gás lacrimogêneo, repórteres correndo em busca das melhores imagens, sujeitas à censura e cortes no horário nobre, socos, pontapés, spray de pimenta, bofetada na orelha, zumbido, imagens espaçadas, escuridão. Um espetáculo desumano. Disseram que tem alguém desmaiado. Muito sangue corre pelo chão. Parece que ignoram aquele corpo estendido na superfície. Não obstante, alguns protestantes arriscam-se em carregá-lo em busca de ajuda. 

Fatos que só tomei por mim nos noticiários da nauseante mídia já descrita por Orwell, com informações completamente inverossímeis. No hospital, olvidado por três meses, recebi algumas visitas, que me viam como um sobrevivente guerreiro. Um baderneiro e irresponsável para os ignóbeis e chulos, que brincam com a vida alheia, sem perceberem que a existência será lépida para todos. O zumbido ainda me acompanha, juntamente com a solidão. Agora, ao protesto, assisto sentado em uma cadeira de rodas. Recuperando-me de um trauma ainda não curado. Início do ano recebi a notícia de que havia passado no curso de odontologia em uma boa universidade pública, sonho de minha mãe. Mas penso em não me matricular. Ainda estou muito vulnerável a todas estas mudanças repentinas. Sei que sairei desta, pois sou um pugilista nato, embora por si só, sem nunca ter tido apoio do Estado. Neste regime fechado não me calarei, frente a esta condução cega e indirigível, assim como muitos outros, fui, sou e serei, apenas mais um combatente invisível. 

                   Apenas mais um injustiçado no mundo.



*Ricardo Lacava Bailone
Médico veterinário graduado pela Universidade Estadual Paulista, mestrado pela Universidade Federal de Santa Catarina e Doutorado pela Universidade Estadual Paulista e Harper Adams University (Sanduíche Reino Unido). Servidor Público Federal do Ministério da Agricultura, membro da International Society of Applied Ethology, possui vários artigos científicos publicados em periódicos conceituados nacionais e internacionais de sua área de atuação. Mais de vinte participações em antologias com classificações e menções honrosas. Vencedor do XIV Prêmio Literário Livraria Asabeça 2015 com a obra "O canto do Urutau (A lenda da mãe-da-lua)". publicada na 24ªBienal Internacional do Livro de São Paulo em 2016.

- (Agora, também, vencedor do XII Concurso Contos do Tijuco 2017) 












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  4. Adorei o conto. Uma narrativa sensacional. Parabéns!👏👏

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