quinta-feira, 31 de julho de 2014

IX Concurso Contos do Tijuco - “JACI DE ALMEIDA”

                          
 A L A M I
  Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba.
        Entidade de utilidade publica municipal – lei 3896.

                                   IX Concurso Contos do Tijuco
                                      “JACI DE ALMEIDA”

.Regulamento

1 – A Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba – ALAMI - promove o IX Concurso Contos do Tijuco, uma atividade de caráter literário e cultural sem fins lucrativos, que nessa edição homenageia o saudoso Jaci de Almeida – gráfico. 

2 – Poderão inscrever-se escritores de qualquer nacionalidade (desde que o conto seja escrito na língua portuguesa). A inscrição implica na concordância automática com todas as cláusulas desse regulamento.

3 – O conto deverá ser em língua portuguesa, inédito e apresentado em quatro vias digitadas em corpo 12. Cada participante poderá inscrever apenas um conto, sem limite de páginas e sem restrição quanto à forma e ao conteúdo. O concorrente é único e inteiramente responsável por garantir que seu conto seja inédito, sendo responsável, civil e criminalmente, em caso de plágio.

4 – O conto deverá ser enviado em um envelope grande e lacrado, identificado na frente com o nome do concurso. Dentro deste envelope os concorrentes deverão enviar um envelope menor, também lacrado, identificado na parte externa apenas com o título do conto e o pseudônimo utilizado e este envelope menor deverá conter uma folha com os seguintes dados: - nome do conto e pseudônimo, nome completo do autor, e-mail, telefone para contato e pequena biografia. 

5 – O prazo para a inscrição termina, impreterivelmente, no dia 31 de outubro de 2014, valendo a data do carimbo do correio. Enviar a inscrição para o seguinte endereço:

ALAMI – Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba –.
Avenida Três, entre Ruas 18 e 20 nº 240 – Casa da Cultura -
Ituiutaba –MG – CEP 38.300.160.

6 – Os contos serão julgados por uma Comissão Julgadora formada por três membros, de notória competência na matéria, não pertencentes à ALAMI.

7 – Ao autor do conto premiado será oferecido como prêmio a quantia de R$400, OO (quatrocentos reais) e certificado e livros da biblioteca da ALAMI.  

8 – O conto premiado será publicado no blog da ALAMI – solardaliteratura.blogspot.com.br -  e outros sites literários que prestam serviços de divulgação de concursos de contos. A Comissão poderá selecionar mais nove contos, sem classificação, para possível publicação em livro.  

9 – O resultado do concurso sairá numa data bem próxima do dia 11 de dezembro de 2014 ou, imediatamente ao término dos trabalhos da Comissão Julgadora. O resultado do concurso será divulgado no blog: www.solardaliteratura.blogspot.com.br – e outros sites literários que colaboram com a ALAMI na divulgação de concursos de contos.

10 – A entrega do prêmio ao ganhador do Concurso e a entrega do “Certificado de Participação” aos autores dos nove contos selecionados será em data a ser informada. - pelo telefone ou e-mail -.    

1 – Poderá a Comissão Julgadora deixar de outorgar o prêmio se avaliar que a ele nenhum dos contos faz jus. (não haverá devolução dos contos recebidos, que serão incinerados logo após o julgamento).  

12 – Poderá a ALAMI publicar um livro com o conto vencedor e os nove contos selecionados pela Comissão Julgadora. 

13 – As decisões da Comissão Julgadora são irrecorríveis.

14 – Os casos omissos neste regulamento serão resolvidos pela ALAMI

Ituiutaba, 1º de Agosto de 2014.
Comissão Organizadora:
Regina de Souza Marques Almeida - Coordenadora de Concursos-
Membros:
Sonone Luiz Vilela Junqueira
Adelaide Pajuaba Nehme
José Moreira Filho
José Maria Franco de Assis

Enio Eustáquio Ferreira

domingo, 8 de junho de 2014

II Concurso de Poesias 20 de Outubro "Regina de Souza Marques Almeida



                          A L A M I
            Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba.
                            www.solardaliteratura.blogspot.com.br
                                  alamiacademia@yahoo.com.br
                   
                    II CONCURSO DE POESIAS 20 DE OUTUBRO
                     “REGINA DE SOUZA MARQUES ALMEIDA”
Regulamento

 1 – A Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba – ALAMI – com a parceria da Fundação Cultural de Ituiutaba, em comemoração ao Dia do Poeta, promove o II Concurso de Poesia 20 de Outubro, uma atividade de caráter lítero-cultural sem fins lucrativos, que homenageia a escritora e poeta REGINA DE SOUZA MARQUES ALMEIDA. 

 2 – Poderão inscrever-se poetas de qualquer nacionalidade (desde que a poesia seja escrita em língua portuguesa). A inscrição implica em concordância automática com todas as clausulas deste regulamento.

 3 - A poesia, escrita em língua portuguesa, deverá ser inédita e, apresentada em quatro vias digitadas em corpo 12. Cada participante poderá si inscrever com até 3 (três) poesias, contido em até duas páginas cada uma, o tema é livre. O concorrente é único e inteiramente responsável por garantir que suas poesias sejam inéditas, sendo responsável, civil e criminalmente, em caso de cópia.    

 4 - As poesias deverão ser enviadas em um envelope grande e lacradas, identificado na frente com o nome do concurso. Dentro deste envelope os concorrentes deverão enviar um envelope menor, também lacrado, identificado na parte externa apenas com o título do conto e o pseudônimo utilizado. O envelope menor deverá conter uma folha com os seguintes dados: nome completo, e-mail, telefone para contato e dados biográficos.

5 – O prazo para a inscrição termina, impreterivelmente, no dia 31 de agosto de 2014, valendo a data do carimbo do correio ou o comprovante de entrega em mãos, no seguinte endereço:

ALAMI – Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba  –

Rua 24 entre avenidas 19 e 21 nº. 1332

Ituiutaba –MG – CEP 38.300.078 ( Sede da F.C.I.)

6 – As poesias serão analisadas pela Comissão Organizadora que fará a triagem inicial e submeterá as 50 (cinquenta) melhores, para classificação final, a outra banca, composta de, no mínimo, três membros de notório conhecimento na área.



7 – Ao autor da poesia classificada em 1º. Lugar será oferecido como prêmio a quantia de R$200,OO (duzentos reais), certificado e livros da biblioteca da ALAMI.



8 – A poesia premiada será publicado no blog da ALAMI – solardaliteratura.blogspot.com.br -  e outros sites literários que prestam serviços de divulgação de concursos literários. A Comissão Julgadora selecionará mais nove poesias e os autores destas receberam via e-mail Certificado de Menção Honrosa. Poderá a ALAMI publicar uma Antologia com as cinquenta melhores.

 9 – O resultado do Concurso sairá numa data bem próxima do dia 11 de dezembro de 2014 e os prêmios serão entregues na solenidade PREMIO MÉRITO CULTURAL, na sede da Biblioteca Municipal de Ituiutaba. (aos  ganhadores de cidades distantes, não podendo comparecer, receberão o prêmio via correio).

8) Para todos os efeitos legais o participante do presente Concurso declara ser o legítimo autor do poema inscrito e garante o ineditismo do mesmo, responsabilizando-se e isentando a ALAMI de qualquer reclamação ou demanda que porventura venha a ser apresentada em juízo ou fora dele.

11 – A informação do resultado será através do site: www.solardaliteratura.blogspot.com.br, telefone ou e-mail.

12 – Não haverá devolução das poesias inscritas. Findo o concurso, serão incineradas com os respectivos envelopes de identificação. As decisões da Comissão Organizadora e da Comissão Julgadora são irrecorríveis.

14 – Os casos omissos neste regulamento serão resolvidos pela ALAMI



15 - Fica eleito o Foro da Comarca de Ituiutaba/MG como o único competente, com exclusão de qualquer outro, por mais privilegiado que seja, para dirimir eventuais questões judiciais relativas ao II Concurso de Poesias 20 de Outubro “Regina de Souza Marques Almeida” 



Ituiutaba, 31 de maio de 2014.

Comissão Organizadora:

Enio Eustáquio Ferreira-

Presidente da ALAMI

Membros:

Sonone Luiz Vilela Junqueira

Adelaide Pajuaba Nehme

José Moreira Filho

*Regina de Souza Marques Almeida nasceu em Ituiutaba, MG; filha de Adelino Francisco Marques e Guilhermina Souza Marques. É Professora de alfabetização, graduada em História, Psicopedagoga, Especialista em Educação Pré-Escolar. É integrante da ALAMI — Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba —, ocupando a cadeira de nº. 42. É de sua criação e responsabilidade a edição do folhetim cultural Voo Livre e Retrospectiva Cultural n.º 1 (Voo Livre em Revista), ambos publicados pela Fundação Cultural de Ituiutaba.

Regina é Acadêmica Correspondente e Comendadora da Real Academia de Letras do Rio Grande do Sul, representante de Ituiutaba, ocupando a cadeira 33.

Livros publicados:

* ABC DA CONSTRUÇÃO (TEXTOS COLETIVOS COM ALUNOS DA PRÉ-ESCOLA)

* POEMAS E POEMAS PARA VOCÊ

* TRILHAS, VERSOS E SONHOS

Literatura infantil –



*Tauan, meu presente sexagenário.

*A viagem

*Meus sonhos meus valores

*Tiquinho e os gêmeos

*Tiquinho vivenciando o Natal

*Tiquinhos e suas travessuras

*Tiquinho e a sua família

*Minha vida é uma arte (que será lançado este ano)

sexta-feira, 16 de maio de 2014

O princípio da incerteza de um jurado literário


- VIII Concurso de Contos do Tijuco - 

- Arth Silva -

No fim do ano de 2013, Enio Ferreira, o Presidente da ALAMI, como um grande amigo das letras e por saber da minha paixão pela leitura, me convidou pra ser um dos jurados do “VIII Concurso de Contos do Tijuco”, concurso esse que, uma vez inclusive (2007), fui selecionado pelo miniconto “O pipoqueiro”.

Honrado pelo convite, aceitei.

Pois bem... Minha tarefa árdua, juntamente com mais duas juradas, Tereza Martins e Maria Tereza Moreira era ler atentamente todos os contos enviados ao concurso, contos esses que vieram de quase todos os estados brasileiros e de países como Suíça e Japão, e selecionar os 9 melhores textos, além de, é claro, escolher o conto premiado.

Legal, eu estava preparado! Que começasse a leitura!
Porém, fazer a leitura de tantos textos de qualidades distintas seguidamente, e diante de um prazo corrido é uma situação que me fez lembrar e temer o Princípio da Incerteza de Heisenberg, e fazer um equivalente literário dele. Pra quem não sabe, esse princípio diz que é impossível medir ao mesmo tempo a velocidade e a posição de uma partícula subatômica, uma vez que fazer essa medição altera a realidade observada. (entenderam? Não? Educação brasileira é mesmo um caos!)
Um equivalente literário desse princípio anunciaria a impossibilidade de medir talentos em concursos literários. Só que nesse caso essa medição altera não só a realidade do objeto observado (texto), mas também a do próprio observador (jurado), já que esse tem de ler inúmeros textos de boa qualidade seguidos por dezenas de textos com qualidade tão baixa que me pergunto como alguém teve coragem de enviar tal texto pra um concurso (suspeito que seja apenas pra sacanear os jurados)...  Enfim, essa quantidade de textos de baixa qualidade lidos em sequência, dá ao jurado uma angustia e um pessimismo quanto às próximas leituras, que altera o seu estado de consciência diante de cada próximo texto avaliado, podendo atrapalhar no julgamento de um conto.

Por isso, muitas vezes uma pergunta me pousou à cabeça: Será que eu saberia qualificar o texto de um novo Luiz Fernando Veríssimo, um novo Carpinejar ou até um novo Machado de Assis sem saber o nome dos autores e após ler  tantos textos de qualidade tão ruim?
Talvez enfrentar esse Princípio seja um mal de toda mesa julgadora de concursos literários, mas que deve ser encarada com profissionalismo e dedicação em busca dos contos realmente bons que participam dos concursos para que a apresentação de resultados não decepcione.

Quando finalmente consegui ler todos no inicio do mês de fevereiro, pra minha surpresa e alegria, 98% dos textos que selecionei como bons batiam com os resultados da Tereza Martins, e foram confirmados pela Maria Tereza. Inclusive, o texto que eu selecionei como o melhor, "Salto sem barreiras" de autoria do escritor Celso Antonio Lopes, também estava no topo da lista das duas juradas.

Como mineradores, nós jurados tivemos que garimpar ao máximo em meio a muita coisa sem tanto valor até encontrarmos lá no fundo as preciosas pepitas de ouro literário. Muitos eram tremendamente banais, já outros obras, eu gostaria de ter tido a ideia pra escrevê-los como “Encontro no Bistrô” do gaúcho Danilo Silvio Aurich e “Anjo” do paulista André Telucazu Kondo; contos que eu, particularmente, gostei muito e que estarão no livro “VIII Concurso de Contos do Tijuco”, publicado em breve pela ALAMI.  Livro que com certeza será bem recebido por todos aqueles apreciadores do “Princípio da boa literatura”.




Arth Silva é escritor, desenhista, designer e redator publicitário, especialista em perder canetas azuis.
Autor do livro "Contos à Queima Roupa" e da coletânea de memórias dos idosos de Ituiutaba "Gavetas da memória".
Seus trabalhos literários podem ser lidos na página "Sonhando a Deriva".
fsarthur@yahoo.com.br

terça-feira, 11 de março de 2014

Conto vencedor do VIII Concurso Contos do Tijuco


 SALTO SEM BARREIRAS

Celso Lopes - autor 


Em casa quando a situação ficava tensa era fácil de saber:  a Mãe se recolhia  num canto do sofá da sala folheando  sem parar  as mesmas  páginas de um livro do Machado de Assis; o Pai, o Pai  rondava  de um lado pra outro,  pensativo e silencioso; e  eu, de violão em punho, acelerava as batidas, tremulando acordes desconexos e  desafinados... enfim,  criando um  som alto e desigual, cujo objetivo era apenas  atiçar o ambiente daquele  espaço chamado “lar”  com as minhas provocações. O violão parecia dizer em alto e bom som:   “- Ei, Dona Nancy, você não engana a ninguém... largue esse maldito livro e grite as suas mágoas para o seu marido,  vamos!...”.   A Mãe tremia sob a minha música desconcertante; era visível que  resistia, o quanto possível,  em tocar fogo no lar-doce-lar  quando se tratava do Pai. Pode-se dizer que o romance da “Dona Nancy” com o Pai, nascido de uma acirrada disputa com uma tal de “Mariana”, esbarrava nas artimanhas criadas pelo mestre da literatura. Se substituíssemos apenas os nomes, teríamos a história de ambos recontada pela psicologia endiabrada do Bruxo de  Cosme Velho:  “ O “Pai” quis sinceramente fugir, mas já não pode, “Dona  Nancy” como uma serpente, foi se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, susto, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura;  mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima das ervas e pedregulhos  (...)”  
Para a Mãe, “Dona Nancy”, aquelas ausências acumuladas do Pai, que antes lhe soavam   como um sussurro carinhoso, agora explodiam. Explodiam  e apunhalavam. E, por certo, doíam-lhe como nunca!...  Em casa quando a situação ficava, assim,  tensa, eu, sem saber o porquê,  gritava aqueles  acordes no violão e disparava as minhas farpas todas contra o Pai. Fel puro e desprezo, as minhas palavras. Nascia em mim uma crueldade mesquinha que me levava a  provocar o Pai,  a ironizar, a trucidá-lo até, se preciso.  Tantas vezes, tanto fiz.  E tanto fiz,  tanto fiz,  que naquele dia a Mãe também  soltou todos  os seus demônios  contra ele.   “Dona Nancy” aliou-se a mim disparando estilhaços por todos os lados, os seus golpes mais profundos.   Palavras duras e cruéis as de uma esposa para o seu homem. A Mãe esbravejava,  parecendo tirar das páginas do  livro aberto em suas mãos,  todos os seus ais, as suas mágoas  e as suas dores:   “ - O Júnior tem razão!... Pra você, somente os amigos, os amigos  e  as competições!” A Mãe falava em altos brados e eu  sorria por dentro. E vitorioso,  como se desafinasse a minha voz  acompanhando o violão, eu insistia  sem trégua que ele queria mesmo era fugir da gente; o que o Pai pretendia mesmo era livrar-se da sua mulher e do seu filho!...  Instigada por essa infâmia carregada de inveja e rancor  criados  por mim,   a  Mãe pegou o jeito, soprou forte e  avivou as brasas, e  depois, depois  entornou de vez a água fervente:  “...Comigo? ...comigo apenas alguns  minutos, sempre sem uma palavra de  carinho e  sem tempo algum, só cobranças e  cobranças!...  Mandou lavar o meu uniforme? Viu  minha chuteira?... Cadê meu tênis?...Eu?...Eu que me lixasse nesse abandono, nessa sala que mais parece um mausoléu ...  Antes, eu juro, antes eu tivesse deixado você com a espevitada da Mariana, melhor seria!... À noite, muitas noites,  quando eu mais te queria, me via  ali, sozinha. Eu no meu quarto, o Júnior no dele. Sozinhos, os dois. Sem homem, sem pai, sem palavra de amigo. Sempre sozinha, eu.  E  você?...Você lá no bem-bom, comemorando vitórias...  E você? Você ali, na  cama, dormindo,  roncando de cansaço...Pior, um homem sem vida pra mim!... Sem os desafios que eu queria!... E eu,  a boba, a boboca, a vida inteira na platéia, impotente, me remoendo,  assistindo a essa sua epopéia olímpica maldita. Maldito, você!”... 
Naquela tarde, enquanto a Mãe espezinhava o seu homem,  o Pai extravasava  sua  raiva, fazendo desabar sob nossos pés ali na sala,  todos os  seus troféus esportivos, as suas medalhas, as fotografias emolduradas, os seus diplomas e os certificados... Eu, sem lhe dar a trégua exigida,  acentuando o ritmo frenético  do meu potente instrumento, fulminava-o  com minhas setas certeiras e venenosas.  Palavras cruéis as de um filho para um  pai;  dardos  pontiagudos  que o feriam sem dó, como se partissem de um atirador de facas que mirasse  todos os seus  punhais no coração da vítima...Eu repetia, repetia até que  me faltasse o fôlego, como numa competição em busca de recordes:   “- Medalhas, troféus, diplomas...grande merda, tudo isso!...Enquanto você vivia nessas malditas competições esportivas,  eu ficava  aqui, sozinho, sem pai, sem amigo, sem ninguém.... Às favas, esse tal de Moses!...E você ganhou o quê, me diga?...Nada!...Fez, fez e morreu na praia!”...
Em meio à guerra que lhe fazíamos, aquilo que durante anos fora para ele os “louros da vitória” ,agora, acomodavam-se de qualquer jeito em  duas caixas grandes de papelão. O Pai sem dizer uma palavra, como um autômato,  pouco-a-pouco livrava  as nossas  paredes do apartamento, as prateleiras e as duas estantes da sala,  de tudo aquilo que o mundo esportivo lhe dera; e  odiando a Mãe e a mim, descia, furiosamente, as escadarias do prédio pra depositar todas as suas conquistas no suporte da lixeira, junto à calçada da rua. Foram raras oportunidades em que vimos o Pai numa competição;  quem o conhecia, no entanto,  quem conhecia aquele esportista polivalente, de excelente compleição física, um atleta determinado e talentoso, nascido no mesmo dia, mês e ano da lenda-viva do atletismo mundial, Edwin Moses, garantia que dele, o Pai absorvera ingredientes imprescindíveis: a velocidade, a força muscular  e a capacidade de treinar,  treinar e treinar... Hoje,  ali, junto ao parapeito da janela do sétimo andar,  o olhar do Pai nos evitava, mas mantinha sob vigília todos os seus troféus amontoados lá embaixo, dentro das  caixas de papelão sobre o suporte da lixeira. Olhar não é bem o termo, eu jurava que naquele momento, o  Pai tinha visão de águia, capaz de  contemplar, minuciosamente, cada um daqueles objetos. Abrisse a boca pra dizer, o Pai repetiria exaustivo que a medalha de “natação” fora conquistada na raia olímpica do Tênis Clube, quando fora  batido apenas pelo  tri-campeão Ruizinho Leme!... Abrisse a boca pra contar,  o Pai diria que a medalha, cromeada em ouro 18, estava lá embaixo, jogada,  disponível, descartada na lixeira da rua.  Depois, depois diria que estava lá também a medalha  do “futebol”, quando emplacara três a zero nos Pequeninos do Jóquei,  e com isso, fora o campeão e artilheiro daquele ano!...  A Mãe lia pela  milésima vez  o conto “ A Cartomante”, sempre  embevecida pela história de uma tal “Nancy”; e talvez,  como a personagem,  a Mãe também sofresse, remoendo-se em lamentos pelo que dissera ao Pai. Por isso, dissimulando o tanto exato, a Mãe seguia a tudo com os olhos pregados no livro, mas era visível, era nítido pelos seus gestos, que estava  a   poucos instantes de se redimir.  O  Pai,  o Pai  por certo também enxergou  entre as   suas “honrarias”, lá embaixo,  o  troféu Hélio Rubens, homenagem a uma referência do  basquete brasileiro,  que ele conquistara na partida final contra o “dream team” do Colorado A.C.;  O Pai não se cansava de nos dizer  que virara o jogo com duas cestas-de-três, o que lhe valera o reconhecimento de toda a arquibancada, inclusive dos adversários!...O troféu, agora, também estava lá na lixeira, tal qual o do “handebol”, que  o Pai ganhara numa partida memorável, segundo ele,  contra o Paineirão F.C., quando  enfiou um, dois, três.... quinze  espetaculares arremessos indefensáveis  contra o goleiro Gilmar Moreno!...  Vez ou outra, os olhos aquilinos do Pai voltavam-se  para o interior da sala  rastreando  o vazio das paredes, a limpidez  das estantes e a profundidade das prateleiras... Por vezes,  o Pai  mirava  seus olhos  reticentes endereçados  a mim e à Mãe, mas em poucos instantes  deixava-nos ao abandono, negligenciava-nos, demonstrando que na lixeira da rua continuava a razão de ser de toda a sua vida. Apoiado no beiral de uma das janelas da sala, e agora dedilhando com ligeira suavidade as cordas do violão, eu pude ver quando os  ruídos da rua  estamparam-lhe um sorriso no rosto. O menino, visto do alto,  não tinha mais de 12 anos. Primeiro, o garoto olhou para os lados,  depois subiu os olhos como quem tivesse algo a  conferir  naquele  edifício a sua  frente. O Pai, mais visível ali na janela principal,  esquivou-se  para a cortina,  temeroso de algum confronto;  pelo jeito o Pai queria apenas que alguém ficasse com tudo aquilo,  de maneira a gostar, a amar,  acarinhar....  E lá estava o  menino, ora puxando das caixas um troféu, ora uma fotografia, ora uma medalha... Chegou até mesmo a apanhar o porta-retrato do Edwin Moses... Abandonou-o rápido, por certo  desconhecia o famoso atleta mundial dos 400 metros com barreiras... a lenda-viva!... O menino, agora, retirava da caixa  um  quadro emoldurado. O Pai, com a voz embargada, com os olhos marejados ali na sala, e sem se dar conta da minha irritante  melodia, como se ignorasse a  nossa presença  ou nunca  a tivesse percebido, o Pai soletrava baixinho, de cor e emocionado, como se acompanhasse a leitura em voz alta nos lábios do garoto:  “ Conferimos o certificado de Honra ao Mérito ao atleta Jairo Santos Silva por sua participação nos 100 metros com barreiras...”   O olhar do garoto voltou-se, outra vez,  para o alto do edifício e, prudente, o Pai recolheu-se para fora do beiral.  Mas, fora mesmo a medalha, aquela cromeada em ouro 18, a de natação, que roubara o interesse do menino. Num relance, como quem subisse a um pódio imaginário, vestiu-a sobre o pescoço, e alegre como nunca, lá foi ele feliz, rua afora, com a medalha no peito, simulando braçadas numa raia olímpica invisível...   O sorriso do Pai, naquele instante,  inundava o ar.  Respirando emoção e entretido até a medula, o Pai só voltou a si  diante da minha nova ofensiva,  com  as batidas fortes,  estridentes e cortantes do violão,  como  a lhe dizer com o dedo em riste: “Vai ficar aí parado feito estátua?...O estrago  já está feito, agora  é consertar ou quebrar de vez!... Esses prêmios estão mesmo  no lugar merecido: sabe onde?...no Lixo!...Lá embaixo, na Lixeira da rua!... Quem sabe, agora,  daqui pra frente, você  arruma  um tempo pro seu filho e pra sua mulher, hein?”    Depois disso, um longo e interminável silêncio se interpôs entre nós ali na sala. Em gestos lentos, lentíssimos até, o que o Pai fez foi  matar  dois coelhos de uma só vez: o seu filho e a sua mulher, agora, teriam de amargar uma culpa pela vida inteira; carregar a ferida exposta, eternamente, como uma chaga-viva!...Um revide de pura vingança contra a nossa indiferença pelas  suas competições esportivas.  E ali, bem ali diante do nosso nariz, o  Pai, como quem fosse  subir ao pódio sob flashes, aplausos  e chuva de pétalas... O Pai, do alto de seus 1,80 metros, e com a jovialidade de cinco décadas, tentou ainda,  em prantos, impedir que os homens da Limpeza Pública brutalizassem suas conquistas, mas a voz soou-lhe débil, frágil, como um sussurro desesperado... E naquele instante,  ainda que a Mãe  tentasse  um grito  impeditivo    “ - Não, Jairo,  pelo amor de Deus, isso não!”, e eu,  emudecendo o instrumento sob minhas mãos trêmulas,   eu lhe endereçasse  uma palavra profunda clamando por tradução: “Calma, Pai!...Calma, Pai!..Calma!”; o Pai, como quem se preparasse para uma enterrada definitiva no garrafão, ou para chutar um pênalti sem qualquer chance de defesa para o goleiro, ou ainda, cortar em diagonal a bola suplicante da rede,  ou quem sabe,  num esforço sobre-humano, deixar à deriva todos os  seus competidores na pista com barreiras, à la Moses... O Pai, silenciosamente, sem dizer uma palavra sequer, sem tréguas ao cronômetro da vida, num ímpeto de agilidade e impulso,  lançou-se  janela abaixo em busca de si mesmo;  precisamente, trinta e dois  metros e vinte e três centímetros, como atestaria a Perícia Técnica no laudo do  exame necroscópico. 




Breve currículo:
O autor Celso Lopes é  natural de Guará, interior do Estado de São Paulo e está radicado na capital paulista há muitos anos. Tem formação em Letras (USP/SP) e pós-graduação em Literatura brasileira (UNICID/SP).  Atua na área de Comunicação e Marketing e  participa de concursos literários nacionais. Livros publicado: Pedra na Contraluz (contos), Dei bandeira, hein? (mosaicos urbanos)  e Retrato quase falado do meio do caminho (poesias).
  


segunda-feira, 10 de março de 2014

Resultado - VIII Concurso Contos do Tijuco - 2013

.                               A L A M I     
         Academia de Letras Artes e Música de Ituiutaba
      
                VIII CONCURSO CONTOS DO TIJUCO

RESULTADO:

CONTO PREMIADO
Salto sem barreiras –
Autor – Celso Antônio Lopes da Silva –
Guará – SP -

Contos selecionados – sem ordem de classificação

- Anjo
Autor – André Telucazu Kondo –
Santo André – SP –

- O que houve com a televisão?
Autor – Marcelo Gomes Jorge Féres
Niterói – R. J. –

- Mais uma vítima da lenda urbana
Autor – Leandro Luiz
São Paulo – SP –

- 50 velas amarelas
Autor – Luiz Alberto dos Santos
Coruripe – AL –

- O professor
Autor – Darcy Ribeiro da cruz
Rio de Janeiro – RJ –

- Encontro no Bistrô
Autor – Danilo Silvio Aurich
Porto Alegre –RS –

- Calma que o petróleo é nosso
Autor – Vitor Coelho Camargo Melo
Duque de Caxias – RJ –

- A última visita
Autor – Rafael de Freitas Silva
Queimados – RJ –

- Onde morava João
Autor – Eduardo Chaves Laurent
Porto Alegre – RS
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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Agesípolis Fernandes Maciel – 1913-2001 - imortalizado pela sua literatura –

 
      







              Negra Joana
– do livro “Falando de Saudade” – 1.993


Baixadão de terra massapé de coloração roxa, quase preta, nas enseadas dos córregos e alagados, em razão das grandes cheias do Rio Paranaíba, cenário merecedor de um capitulo à parte.
Os córregos, verdadeiros ribeirões, alguns de pequeno curso entre as nascentes e os desaguadouros, outros mais extensos, mas todos oriundos de cabeceiras em plena mata bruta, devastada.
À princípio, pequenos veios d’água, quase secos nas estiagens prolongadas, avolumando-se com as enxurradas, crescendo com o tempo, na medida da destruição da mataria.
Esta quase se acabou, abatida pelo machado, em grandes derrubadas e pelo fogo inclemente, atirado e atiçado pelo caboclo, inimigo implacável das árvores e toda e qualquer vegetação natural!
O sertanejo tinha a mania do fogo. Ignorante, julgava que fortalecia e dava vigor à terra. E encontrar um capim vedado, mesmo simples montículo de resto de cultura, a chamada binga ou palito de fósforo entrava em ação. Dali, o fogo se espalhava, queimando, destruindo em fúria louca tudo por onde passava, até ser barrado por chuva providencial ou vertente d’água.
Longos dias e longas noites era aquele vermelhão no céu!
Não havia aceiro ou estrada que o barrasse. Parte do roçado era plantada em milho na roça de toucos, em que a brota era cortada à enxada, às vezes,  simples poda a foice, para desabafar o milho. E o cereal vinha viçoso; com sessenta dias estava de pendão, fecundando as bonequinhas, prenúncio de espiga grande e coberta de grãos de ponta a ponta!
Às vezes, a roça era colhida. Outras, os porcos eram soltos e se encarregavam da colheita: - da roça para o bucho. E o capado gordo, grande riqueza da região naquele tempo, seguia para os abatedouros.
Mas, o que pretendo narrar, em lances leves, descrevendo a natureza inóspita, são os acontecimentos da época, cenas de que o local foi palco, a vida dura do caboclo, enfrentando cobras venenosas, as brigas por qualquer desentendimento, as tocaias e, sobretudo, o maior inimigo do entrante: - a malária.
Esta, mais que a peixeira, a garrucha de chumbo de carrego pela boca, como a espingarda pica pau, mais tarde o revolver, de que ninguém se apeava, ostentando-os na cinta, em sinal de que era cabra macho e não levava desaforo para casa, - a malária dizimou mais! Havia a diária e a terçã, com surtos de febre diários e intermitentes. Uma legião de homens, mulheres e crianças sucumbiu-se, sem deixar nome ou vestígio de sua fama de trabalhadores de sol a sol, vivendo em ranchos cobertos de folhas de coqueiros, com paredes de pau a pique, algumas barreadas, a maioria sem nenhum revestimento! Alimentavam-se bem e fartamente de carnes de caças, peixes, farinha, palmitos e feijão. À princípio os mortos eram sepultados em cemitérios improvisados, em plena mata. Depois, por volta de 1920, pela iniciativa de um benemérito fazendeiro, Joaquim Gonçalves de Azevedo, de saudosa memória, foi construído o cemitério do “Gafanhoto”, no local denominado “Serrote”, em terras de sua propriedade.
Morrendo muita gente, o transporte dos defuntos era feito em carros de bois, toldados. As distancias a percorrer iam até vinte, trinta quilômetros e mais. No tempo de maior mortandade, o carro trazia dois, três cadáveres de cada vez. Os caixões vazios voltavam a abrigar outros.
Certa feita perguntaram a um carreiro: - Quantos vieram nesta viagem? – Hoje só três.
- Mas morreram simultaneamente?
-Não. Às vezes morre um, tem outro muito mal, a gente fica assuntando... Manda ver na vizinhança se vai ter mais algum, então a gente espera. Amanhã, temos mais serviço!
- Então morre tanta gente assim?
- Se morre!... É um Deus nos acuda!
Quando o doente ficava ruim, algum em coma, sabia-se que estava vivo porque respirava, balbuciando palavras sem nexo, quase inaudíveis, sabia-se que o desenlace iria demorar.
Nessas ocasiões mandavam chamar Negra Joana, benzedeira, ótima colhedora de anjinhos e melhor ainda para ajudar o moribundo descansar.
Tia Joana chegava, era um alívio. Todos saíam do quarto.
Era o preceito.
Se se tratasse de parto, ela fazia umas mesuras. Colocava o chapéu do pai sobre a barriga da parturiente. Trazia um  feixe de chaves já enferrujadas, gastas pelo uso e simulava abrir o fecho que impedia a criança de nascer. Quase sempre dava bom resultado.
Só atendia a chamados para ajudar enfermo morrer, quando estivesse muito mal e não encontrava meios de dar o último suspiro. Diziam que a fraqueza era tanta, tanta, que o doente não tinha forças para morrer. Ficava vendo fantasmas, de olhos esbugalhados; semicerrados, calmo, quando o enfermo era de bom procedimento. Mas morrer mesmo, que seria bom, nada!
Davam muito trabalho à tia Joana!
- Pode deixá, meu fio, que já, já ele ta aliviado e discansa na mão de Deus!
Todos saiam. O silêncio era profundo, em sinal de respeito pelo serviço.
O cara não pressentia nada. Olhos parados no infinito, às vezes balbuciava.
Tia Joana fazia gestos característicos, punha o cachimbo de lado da boca e entrava em ação.
- Morre, meu irmão. Vancê é filiz de morrê ansim. Vai para a glória de Deus.
O enfermo continuava alheio, indiferente a tudo!
Quando se tratasse de mulher grávida, quanto maior o feto, mais demorado o desenlace. Também pudera eram dois a ajudar a morrer. Um queria, já estava disposto, o outro fincava o pé: - Não vou, não quero ir!
Era muito serviço a um só tempo para tia Joana! Esgotado todos os recursos de persuasão, ela era forçada a usar de meios mais convincentes. Ajoelhava sobre a barriga do moribundo e comprimia. O fôlego ia ficando curto, se distanciava devagar, devagar, até o companheiro entregar os pontos.
Tia Joana era famosa. E com justificada razão!  ###

Agesípolis Fernandes Maciel – 1913-2001 - imortalizado pela sua literatura –
– Nascido na cidade de Uberaba - MG, em 14 de julho de 1913. Professor. Mudou-se para a cidade de Ituiutaba – MG onde foi Diretor do Colégio Estadual de Ituiutaba, presidente do Sindicato Rural, diretor da Associação Comercial e Industrial de Ituiutaba, Vereador. Recebeu o título de Cidadão Honorário de Ituiutaba por seu trabalho e pela dedicação e amor à comunidade.