terça-feira, 11 de março de 2014

Conto vencedor do VIII Concurso Contos do Tijuco


 SALTO SEM BARREIRAS

Celso Lopes - autor 


Em casa quando a situação ficava tensa era fácil de saber:  a Mãe se recolhia  num canto do sofá da sala folheando  sem parar  as mesmas  páginas de um livro do Machado de Assis; o Pai, o Pai  rondava  de um lado pra outro,  pensativo e silencioso; e  eu, de violão em punho, acelerava as batidas, tremulando acordes desconexos e  desafinados... enfim,  criando um  som alto e desigual, cujo objetivo era apenas  atiçar o ambiente daquele  espaço chamado “lar”  com as minhas provocações. O violão parecia dizer em alto e bom som:   “- Ei, Dona Nancy, você não engana a ninguém... largue esse maldito livro e grite as suas mágoas para o seu marido,  vamos!...”.   A Mãe tremia sob a minha música desconcertante; era visível que  resistia, o quanto possível,  em tocar fogo no lar-doce-lar  quando se tratava do Pai. Pode-se dizer que o romance da “Dona Nancy” com o Pai, nascido de uma acirrada disputa com uma tal de “Mariana”, esbarrava nas artimanhas criadas pelo mestre da literatura. Se substituíssemos apenas os nomes, teríamos a história de ambos recontada pela psicologia endiabrada do Bruxo de  Cosme Velho:  “ O “Pai” quis sinceramente fugir, mas já não pode, “Dona  Nancy” como uma serpente, foi se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, susto, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura;  mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima das ervas e pedregulhos  (...)”  
Para a Mãe, “Dona Nancy”, aquelas ausências acumuladas do Pai, que antes lhe soavam   como um sussurro carinhoso, agora explodiam. Explodiam  e apunhalavam. E, por certo, doíam-lhe como nunca!...  Em casa quando a situação ficava, assim,  tensa, eu, sem saber o porquê,  gritava aqueles  acordes no violão e disparava as minhas farpas todas contra o Pai. Fel puro e desprezo, as minhas palavras. Nascia em mim uma crueldade mesquinha que me levava a  provocar o Pai,  a ironizar, a trucidá-lo até, se preciso.  Tantas vezes, tanto fiz.  E tanto fiz,  tanto fiz,  que naquele dia a Mãe também  soltou todos  os seus demônios  contra ele.   “Dona Nancy” aliou-se a mim disparando estilhaços por todos os lados, os seus golpes mais profundos.   Palavras duras e cruéis as de uma esposa para o seu homem. A Mãe esbravejava,  parecendo tirar das páginas do  livro aberto em suas mãos,  todos os seus ais, as suas mágoas  e as suas dores:   “ - O Júnior tem razão!... Pra você, somente os amigos, os amigos  e  as competições!” A Mãe falava em altos brados e eu  sorria por dentro. E vitorioso,  como se desafinasse a minha voz  acompanhando o violão, eu insistia  sem trégua que ele queria mesmo era fugir da gente; o que o Pai pretendia mesmo era livrar-se da sua mulher e do seu filho!...  Instigada por essa infâmia carregada de inveja e rancor  criados  por mim,   a  Mãe pegou o jeito, soprou forte e  avivou as brasas, e  depois, depois  entornou de vez a água fervente:  “...Comigo? ...comigo apenas alguns  minutos, sempre sem uma palavra de  carinho e  sem tempo algum, só cobranças e  cobranças!...  Mandou lavar o meu uniforme? Viu  minha chuteira?... Cadê meu tênis?...Eu?...Eu que me lixasse nesse abandono, nessa sala que mais parece um mausoléu ...  Antes, eu juro, antes eu tivesse deixado você com a espevitada da Mariana, melhor seria!... À noite, muitas noites,  quando eu mais te queria, me via  ali, sozinha. Eu no meu quarto, o Júnior no dele. Sozinhos, os dois. Sem homem, sem pai, sem palavra de amigo. Sempre sozinha, eu.  E  você?...Você lá no bem-bom, comemorando vitórias...  E você? Você ali, na  cama, dormindo,  roncando de cansaço...Pior, um homem sem vida pra mim!... Sem os desafios que eu queria!... E eu,  a boba, a boboca, a vida inteira na platéia, impotente, me remoendo,  assistindo a essa sua epopéia olímpica maldita. Maldito, você!”... 
Naquela tarde, enquanto a Mãe espezinhava o seu homem,  o Pai extravasava  sua  raiva, fazendo desabar sob nossos pés ali na sala,  todos os  seus troféus esportivos, as suas medalhas, as fotografias emolduradas, os seus diplomas e os certificados... Eu, sem lhe dar a trégua exigida,  acentuando o ritmo frenético  do meu potente instrumento, fulminava-o  com minhas setas certeiras e venenosas.  Palavras cruéis as de um filho para um  pai;  dardos  pontiagudos  que o feriam sem dó, como se partissem de um atirador de facas que mirasse  todos os seus  punhais no coração da vítima...Eu repetia, repetia até que  me faltasse o fôlego, como numa competição em busca de recordes:   “- Medalhas, troféus, diplomas...grande merda, tudo isso!...Enquanto você vivia nessas malditas competições esportivas,  eu ficava  aqui, sozinho, sem pai, sem amigo, sem ninguém.... Às favas, esse tal de Moses!...E você ganhou o quê, me diga?...Nada!...Fez, fez e morreu na praia!”...
Em meio à guerra que lhe fazíamos, aquilo que durante anos fora para ele os “louros da vitória” ,agora, acomodavam-se de qualquer jeito em  duas caixas grandes de papelão. O Pai sem dizer uma palavra, como um autômato,  pouco-a-pouco livrava  as nossas  paredes do apartamento, as prateleiras e as duas estantes da sala,  de tudo aquilo que o mundo esportivo lhe dera; e  odiando a Mãe e a mim, descia, furiosamente, as escadarias do prédio pra depositar todas as suas conquistas no suporte da lixeira, junto à calçada da rua. Foram raras oportunidades em que vimos o Pai numa competição;  quem o conhecia, no entanto,  quem conhecia aquele esportista polivalente, de excelente compleição física, um atleta determinado e talentoso, nascido no mesmo dia, mês e ano da lenda-viva do atletismo mundial, Edwin Moses, garantia que dele, o Pai absorvera ingredientes imprescindíveis: a velocidade, a força muscular  e a capacidade de treinar,  treinar e treinar... Hoje,  ali, junto ao parapeito da janela do sétimo andar,  o olhar do Pai nos evitava, mas mantinha sob vigília todos os seus troféus amontoados lá embaixo, dentro das  caixas de papelão sobre o suporte da lixeira. Olhar não é bem o termo, eu jurava que naquele momento, o  Pai tinha visão de águia, capaz de  contemplar, minuciosamente, cada um daqueles objetos. Abrisse a boca pra dizer, o Pai repetiria exaustivo que a medalha de “natação” fora conquistada na raia olímpica do Tênis Clube, quando fora  batido apenas pelo  tri-campeão Ruizinho Leme!... Abrisse a boca pra contar,  o Pai diria que a medalha, cromeada em ouro 18, estava lá embaixo, jogada,  disponível, descartada na lixeira da rua.  Depois, depois diria que estava lá também a medalha  do “futebol”, quando emplacara três a zero nos Pequeninos do Jóquei,  e com isso, fora o campeão e artilheiro daquele ano!...  A Mãe lia pela  milésima vez  o conto “ A Cartomante”, sempre  embevecida pela história de uma tal “Nancy”; e talvez,  como a personagem,  a Mãe também sofresse, remoendo-se em lamentos pelo que dissera ao Pai. Por isso, dissimulando o tanto exato, a Mãe seguia a tudo com os olhos pregados no livro, mas era visível, era nítido pelos seus gestos, que estava  a   poucos instantes de se redimir.  O  Pai,  o Pai  por certo também enxergou  entre as   suas “honrarias”, lá embaixo,  o  troféu Hélio Rubens, homenagem a uma referência do  basquete brasileiro,  que ele conquistara na partida final contra o “dream team” do Colorado A.C.;  O Pai não se cansava de nos dizer  que virara o jogo com duas cestas-de-três, o que lhe valera o reconhecimento de toda a arquibancada, inclusive dos adversários!...O troféu, agora, também estava lá na lixeira, tal qual o do “handebol”, que  o Pai ganhara numa partida memorável, segundo ele,  contra o Paineirão F.C., quando  enfiou um, dois, três.... quinze  espetaculares arremessos indefensáveis  contra o goleiro Gilmar Moreno!...  Vez ou outra, os olhos aquilinos do Pai voltavam-se  para o interior da sala  rastreando  o vazio das paredes, a limpidez  das estantes e a profundidade das prateleiras... Por vezes,  o Pai  mirava  seus olhos  reticentes endereçados  a mim e à Mãe, mas em poucos instantes  deixava-nos ao abandono, negligenciava-nos, demonstrando que na lixeira da rua continuava a razão de ser de toda a sua vida. Apoiado no beiral de uma das janelas da sala, e agora dedilhando com ligeira suavidade as cordas do violão, eu pude ver quando os  ruídos da rua  estamparam-lhe um sorriso no rosto. O menino, visto do alto,  não tinha mais de 12 anos. Primeiro, o garoto olhou para os lados,  depois subiu os olhos como quem tivesse algo a  conferir  naquele  edifício a sua  frente. O Pai, mais visível ali na janela principal,  esquivou-se  para a cortina,  temeroso de algum confronto;  pelo jeito o Pai queria apenas que alguém ficasse com tudo aquilo,  de maneira a gostar, a amar,  acarinhar....  E lá estava o  menino, ora puxando das caixas um troféu, ora uma fotografia, ora uma medalha... Chegou até mesmo a apanhar o porta-retrato do Edwin Moses... Abandonou-o rápido, por certo  desconhecia o famoso atleta mundial dos 400 metros com barreiras... a lenda-viva!... O menino, agora, retirava da caixa  um  quadro emoldurado. O Pai, com a voz embargada, com os olhos marejados ali na sala, e sem se dar conta da minha irritante  melodia, como se ignorasse a  nossa presença  ou nunca  a tivesse percebido, o Pai soletrava baixinho, de cor e emocionado, como se acompanhasse a leitura em voz alta nos lábios do garoto:  “ Conferimos o certificado de Honra ao Mérito ao atleta Jairo Santos Silva por sua participação nos 100 metros com barreiras...”   O olhar do garoto voltou-se, outra vez,  para o alto do edifício e, prudente, o Pai recolheu-se para fora do beiral.  Mas, fora mesmo a medalha, aquela cromeada em ouro 18, a de natação, que roubara o interesse do menino. Num relance, como quem subisse a um pódio imaginário, vestiu-a sobre o pescoço, e alegre como nunca, lá foi ele feliz, rua afora, com a medalha no peito, simulando braçadas numa raia olímpica invisível...   O sorriso do Pai, naquele instante,  inundava o ar.  Respirando emoção e entretido até a medula, o Pai só voltou a si  diante da minha nova ofensiva,  com  as batidas fortes,  estridentes e cortantes do violão,  como  a lhe dizer com o dedo em riste: “Vai ficar aí parado feito estátua?...O estrago  já está feito, agora  é consertar ou quebrar de vez!... Esses prêmios estão mesmo  no lugar merecido: sabe onde?...no Lixo!...Lá embaixo, na Lixeira da rua!... Quem sabe, agora,  daqui pra frente, você  arruma  um tempo pro seu filho e pra sua mulher, hein?”    Depois disso, um longo e interminável silêncio se interpôs entre nós ali na sala. Em gestos lentos, lentíssimos até, o que o Pai fez foi  matar  dois coelhos de uma só vez: o seu filho e a sua mulher, agora, teriam de amargar uma culpa pela vida inteira; carregar a ferida exposta, eternamente, como uma chaga-viva!...Um revide de pura vingança contra a nossa indiferença pelas  suas competições esportivas.  E ali, bem ali diante do nosso nariz, o  Pai, como quem fosse  subir ao pódio sob flashes, aplausos  e chuva de pétalas... O Pai, do alto de seus 1,80 metros, e com a jovialidade de cinco décadas, tentou ainda,  em prantos, impedir que os homens da Limpeza Pública brutalizassem suas conquistas, mas a voz soou-lhe débil, frágil, como um sussurro desesperado... E naquele instante,  ainda que a Mãe  tentasse  um grito  impeditivo    “ - Não, Jairo,  pelo amor de Deus, isso não!”, e eu,  emudecendo o instrumento sob minhas mãos trêmulas,   eu lhe endereçasse  uma palavra profunda clamando por tradução: “Calma, Pai!...Calma, Pai!..Calma!”; o Pai, como quem se preparasse para uma enterrada definitiva no garrafão, ou para chutar um pênalti sem qualquer chance de defesa para o goleiro, ou ainda, cortar em diagonal a bola suplicante da rede,  ou quem sabe,  num esforço sobre-humano, deixar à deriva todos os  seus competidores na pista com barreiras, à la Moses... O Pai, silenciosamente, sem dizer uma palavra sequer, sem tréguas ao cronômetro da vida, num ímpeto de agilidade e impulso,  lançou-se  janela abaixo em busca de si mesmo;  precisamente, trinta e dois  metros e vinte e três centímetros, como atestaria a Perícia Técnica no laudo do  exame necroscópico. 




Breve currículo:
O autor Celso Lopes é  natural de Guará, interior do Estado de São Paulo e está radicado na capital paulista há muitos anos. Tem formação em Letras (USP/SP) e pós-graduação em Literatura brasileira (UNICID/SP).  Atua na área de Comunicação e Marketing e  participa de concursos literários nacionais. Livros publicado: Pedra na Contraluz (contos), Dei bandeira, hein? (mosaicos urbanos)  e Retrato quase falado do meio do caminho (poesias).
  


segunda-feira, 10 de março de 2014

Resultado - VIII Concurso Contos do Tijuco - 2013

.                               A L A M I     
         Academia de Letras Artes e Música de Ituiutaba
      
                VIII CONCURSO CONTOS DO TIJUCO

RESULTADO:

CONTO PREMIADO
Salto sem barreiras –
Autor – Celso Antônio Lopes da Silva –
Guará – SP -

Contos selecionados – sem ordem de classificação

- Anjo
Autor – André Telucazu Kondo –
Santo André – SP –

- O que houve com a televisão?
Autor – Marcelo Gomes Jorge Féres
Niterói – R. J. –

- Mais uma vítima da lenda urbana
Autor – Leandro Luiz
São Paulo – SP –

- 50 velas amarelas
Autor – Luiz Alberto dos Santos
Coruripe – AL –

- O professor
Autor – Darcy Ribeiro da cruz
Rio de Janeiro – RJ –

- Encontro no Bistrô
Autor – Danilo Silvio Aurich
Porto Alegre –RS –

- Calma que o petróleo é nosso
Autor – Vitor Coelho Camargo Melo
Duque de Caxias – RJ –

- A última visita
Autor – Rafael de Freitas Silva
Queimados – RJ –

- Onde morava João
Autor – Eduardo Chaves Laurent
Porto Alegre – RS
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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Agesípolis Fernandes Maciel – 1913-2001 - imortalizado pela sua literatura –

 
      







              Negra Joana
– do livro “Falando de Saudade” – 1.993


Baixadão de terra massapé de coloração roxa, quase preta, nas enseadas dos córregos e alagados, em razão das grandes cheias do Rio Paranaíba, cenário merecedor de um capitulo à parte.
Os córregos, verdadeiros ribeirões, alguns de pequeno curso entre as nascentes e os desaguadouros, outros mais extensos, mas todos oriundos de cabeceiras em plena mata bruta, devastada.
À princípio, pequenos veios d’água, quase secos nas estiagens prolongadas, avolumando-se com as enxurradas, crescendo com o tempo, na medida da destruição da mataria.
Esta quase se acabou, abatida pelo machado, em grandes derrubadas e pelo fogo inclemente, atirado e atiçado pelo caboclo, inimigo implacável das árvores e toda e qualquer vegetação natural!
O sertanejo tinha a mania do fogo. Ignorante, julgava que fortalecia e dava vigor à terra. E encontrar um capim vedado, mesmo simples montículo de resto de cultura, a chamada binga ou palito de fósforo entrava em ação. Dali, o fogo se espalhava, queimando, destruindo em fúria louca tudo por onde passava, até ser barrado por chuva providencial ou vertente d’água.
Longos dias e longas noites era aquele vermelhão no céu!
Não havia aceiro ou estrada que o barrasse. Parte do roçado era plantada em milho na roça de toucos, em que a brota era cortada à enxada, às vezes,  simples poda a foice, para desabafar o milho. E o cereal vinha viçoso; com sessenta dias estava de pendão, fecundando as bonequinhas, prenúncio de espiga grande e coberta de grãos de ponta a ponta!
Às vezes, a roça era colhida. Outras, os porcos eram soltos e se encarregavam da colheita: - da roça para o bucho. E o capado gordo, grande riqueza da região naquele tempo, seguia para os abatedouros.
Mas, o que pretendo narrar, em lances leves, descrevendo a natureza inóspita, são os acontecimentos da época, cenas de que o local foi palco, a vida dura do caboclo, enfrentando cobras venenosas, as brigas por qualquer desentendimento, as tocaias e, sobretudo, o maior inimigo do entrante: - a malária.
Esta, mais que a peixeira, a garrucha de chumbo de carrego pela boca, como a espingarda pica pau, mais tarde o revolver, de que ninguém se apeava, ostentando-os na cinta, em sinal de que era cabra macho e não levava desaforo para casa, - a malária dizimou mais! Havia a diária e a terçã, com surtos de febre diários e intermitentes. Uma legião de homens, mulheres e crianças sucumbiu-se, sem deixar nome ou vestígio de sua fama de trabalhadores de sol a sol, vivendo em ranchos cobertos de folhas de coqueiros, com paredes de pau a pique, algumas barreadas, a maioria sem nenhum revestimento! Alimentavam-se bem e fartamente de carnes de caças, peixes, farinha, palmitos e feijão. À princípio os mortos eram sepultados em cemitérios improvisados, em plena mata. Depois, por volta de 1920, pela iniciativa de um benemérito fazendeiro, Joaquim Gonçalves de Azevedo, de saudosa memória, foi construído o cemitério do “Gafanhoto”, no local denominado “Serrote”, em terras de sua propriedade.
Morrendo muita gente, o transporte dos defuntos era feito em carros de bois, toldados. As distancias a percorrer iam até vinte, trinta quilômetros e mais. No tempo de maior mortandade, o carro trazia dois, três cadáveres de cada vez. Os caixões vazios voltavam a abrigar outros.
Certa feita perguntaram a um carreiro: - Quantos vieram nesta viagem? – Hoje só três.
- Mas morreram simultaneamente?
-Não. Às vezes morre um, tem outro muito mal, a gente fica assuntando... Manda ver na vizinhança se vai ter mais algum, então a gente espera. Amanhã, temos mais serviço!
- Então morre tanta gente assim?
- Se morre!... É um Deus nos acuda!
Quando o doente ficava ruim, algum em coma, sabia-se que estava vivo porque respirava, balbuciando palavras sem nexo, quase inaudíveis, sabia-se que o desenlace iria demorar.
Nessas ocasiões mandavam chamar Negra Joana, benzedeira, ótima colhedora de anjinhos e melhor ainda para ajudar o moribundo descansar.
Tia Joana chegava, era um alívio. Todos saíam do quarto.
Era o preceito.
Se se tratasse de parto, ela fazia umas mesuras. Colocava o chapéu do pai sobre a barriga da parturiente. Trazia um  feixe de chaves já enferrujadas, gastas pelo uso e simulava abrir o fecho que impedia a criança de nascer. Quase sempre dava bom resultado.
Só atendia a chamados para ajudar enfermo morrer, quando estivesse muito mal e não encontrava meios de dar o último suspiro. Diziam que a fraqueza era tanta, tanta, que o doente não tinha forças para morrer. Ficava vendo fantasmas, de olhos esbugalhados; semicerrados, calmo, quando o enfermo era de bom procedimento. Mas morrer mesmo, que seria bom, nada!
Davam muito trabalho à tia Joana!
- Pode deixá, meu fio, que já, já ele ta aliviado e discansa na mão de Deus!
Todos saiam. O silêncio era profundo, em sinal de respeito pelo serviço.
O cara não pressentia nada. Olhos parados no infinito, às vezes balbuciava.
Tia Joana fazia gestos característicos, punha o cachimbo de lado da boca e entrava em ação.
- Morre, meu irmão. Vancê é filiz de morrê ansim. Vai para a glória de Deus.
O enfermo continuava alheio, indiferente a tudo!
Quando se tratasse de mulher grávida, quanto maior o feto, mais demorado o desenlace. Também pudera eram dois a ajudar a morrer. Um queria, já estava disposto, o outro fincava o pé: - Não vou, não quero ir!
Era muito serviço a um só tempo para tia Joana! Esgotado todos os recursos de persuasão, ela era forçada a usar de meios mais convincentes. Ajoelhava sobre a barriga do moribundo e comprimia. O fôlego ia ficando curto, se distanciava devagar, devagar, até o companheiro entregar os pontos.
Tia Joana era famosa. E com justificada razão!  ###

Agesípolis Fernandes Maciel – 1913-2001 - imortalizado pela sua literatura –
– Nascido na cidade de Uberaba - MG, em 14 de julho de 1913. Professor. Mudou-se para a cidade de Ituiutaba – MG onde foi Diretor do Colégio Estadual de Ituiutaba, presidente do Sindicato Rural, diretor da Associação Comercial e Industrial de Ituiutaba, Vereador. Recebeu o título de Cidadão Honorário de Ituiutaba por seu trabalho e pela dedicação e amor à comunidade.

   

sábado, 1 de fevereiro de 2014

enquanto esperamos o resultado do VIII Concurso...

 

A Tia Miséria (recolhido blog -adversus omnes)

Havia no princípio do mundo uma velhinha muito pobre e muito infeliz: era conhecida pela Tia Miséria. Só possuía uma casinha arruinada e uma pereira defronte da porta. Tudo sofria com paciência e resignação, mas só uma coisa não desculpava, nem perdoava: que os garotos subissem à pereira e lhe comessem as pêras. Era capaz de dá-las todas sem provar uma, mas indignava-se contra os que lhas roubavam.

Uma noite bateu-lhe à porta um pobrezinho; correu a abri-la e deu ao pobrezinho a migalha de pão que reservava para si. No dia seguinte despediu-se o pobre e disse-lhe que pedisse o que quisesse.

Só peço que as pessoas que subirem à minha pereira não possam descer sem o meu consentimento – respondeu a velhinha.

- Assim será – respondeu o mendigo.

No outro dia, quando saiu à rua, encontrou três garotos em cima da pereira.

- Ó Tia Miséria, perdoe-nos pelo amor de Deus! Tire-nos daqui, não podemos descer.

- Ah! Pois vocês diziam que não eram os ladrões das minhas pêras! Por esta vez, vá; Se lá voltarem hão-de ficar aí muitos anos.

E os garotos desceram e não mais voltaram à pereira.

Um dia de manhã, entrou-lhe em casa uma mulher de horrendo aspecto, vestida de negro e armada de foice, com as asas negras nos ombros e nos pés.

- O que me quer? - Perguntou a Miséria a tremer.

- Sou a Morte: venho buscar-te.

- Já? Pois nem ao menos me dá um ano de espera?

- Não pode ser - respondeu a Morte.

- Faça-me ao menos um favor: suba à minha pereira e colha-me a última pêra que me resta. Quero comê-la, visto que é a última.

A Morte subiu à pereira, colheu a pêra, mas não pôde descer. Pôs-se a chamar a velhinha. Esta respondeu: “Tem paciência, aí ficarás para todos os séculos. És má, tens feito muitas desgraças, roubando muitos pais aos seus filhos pequeninos...”

E a Morte ficou em cima da pereira.

Passados dias tinha a velhinha em frente da sua porta um exército, composto de padres que se queixavam de que não havia enterros, de escrivães que se lastimavam de não ter inventários, de delegados que se doíam de não fazer promoções orfanológicas, de juízes que se queixavam de não receber emolumentos das reuniões dos conselhos de família, das presidências nos actos de licitações e das sentenças em demarcações, enfim, de todos aqueles indivíduos que vivem da morte do próximo. Todos pediam à velhinha que autorizasse a Morte a descer da pereira, mas a velhinha respondia: “ Não quero, não quero e não quero”.

Falou então a Morte do alto da pereira e fez com a velhinha um contrato: poupar-lhe a vida enquanto o mundo fosse mundo. A velhinha consentiu e a Morte desceu. Por isso enquanto o mundo for mundo a Miséria existirá sobre a Terra.

Conto tradicional português, recolhido por Ataíde Oliveira

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A poesia de Rodrigo Domit

Caros escritores

Enquanto esperamos o resultado do VIII Concurso Contos do Tijuco vamos curtir um pouco da poesia de Rodrigo Domit - Rio de Janeiro.


                                 Pérolas de Rodrigo Domit




Irremediável

A louça delicada

atirada na parede

partiu o silêncio
- em mil pedaços




Ímpeto

Aquela paixão
- todos diziam
era atraso de vida


o que ninguém sabia

é que não tenho pressa



Minimalismo

Papelão sobre tela
jornal sobre calçada

Muito pouco
sobre quase nada

A dura arte de sobreviver


http://rodrigodomit.blogspot.com.br/

terça-feira, 27 de agosto de 2013

VIII Concurso Contos do Tijuco




                VIII Concurso Contos do Tijuco

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Regulamento

1 – A Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba – ALAMI - promove o VIII Concurso Contos do Tijuco, uma atividade de caráter lítero-cultural sem fins lucrativos.

2 – Poderão inscrever-se escritores brasileiros, residentes no país ou no exterior. A inscrição implica na concordância automática com todas as cláusulas desse regulamento.

3 – O conto deverá ser em língua portuguesa, inédito e apresentado em quatro vias digitadas em corpo 12. Cada participante poderá inscrever apenas um conto,sem limite de páginas e sem restrição quanto à forma e ao conteúdo.

4 – É obrigatório o uso de pseudônimo logo abaixo do título do conto e na parte externa de um envelope, com o título repetido. O envelope, lacrado, deve conter, além do conto, o nome do autor, o endereço, o telefone, o e-mail, os dados biográficos e uma cópia xerográfica da carteira de identidade (frente e verso).

5 – O prazo para a inscrição termina, impreterivelmente, no dia 31 de outubro de 2013, valendo a data do carimbo do correio ou o comprovante de entrega em mãos, no seguinte endereço:

ALAMI – Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba –.
Rua 20 entre avenidas 15 e 17,  nº. 1.184
Ituiutaba –MG – CEP 38.300.074

6 – Os contos serão julgados por uma Comissão Julgadora formada por três membros, de notória competência na matéria, não pertencentes à ALAMI.

7 – Ao autor do conto premiado será oferecido como prêmio a quantia de R$400, OO (quatrocentos reais) e certificado e livros da biblioteca da ALAMI.  

8 – O conto premiado será publicado no blog da ALAMI – solardaliteratura.blogspot.com -  e outros sites literários que prestam serviços de divulgação de concursos de contos. A Comissão poderá selecionar mais nove contos, sem classificação, para possível publicação em livro.  

9 – O resultado do concurso sairá numa data bem próxima do dia 25 de dezembro de 2013 ou imediatamente ao término dos trabalhos da Comissão Julgadora. O resultado do concurso será divulgado no blog: www.solardaliteratura.blogspot.com.br – e outros sites literários que colaboram com a ALAMI na divulgação de concursos de contos.

10 – A entrega do prêmio ao ganhador do Concurso e a entrega do “Certificado de Participação” aos autores dos nove contos selecionados será em data a ser informada. - pelo telefone ou e-mail -.    

1 – Poderá a Comissão Julgadora deixar de outorgar o prêmio se avaliar que a ele nenhum dos contos faz jus. (não haverá devolução dos contos recebidos).

12 – Poderá a ALAMI publicar um livro com o conto vencedor e os nove contos selecionados pela Comissão Julgadora. 

13 – As decisões da Comissão Julgadora são irrecorríveis.

14 – Os casos omissos neste regulamento serão resolvidos pela ALAMI

Ituiutaba, 1º de Agosto de 2013.


Comissão Organizadora:
Regina Souza Marques de Almeida -
       Coordenadora.

Membros:
José Maria Franco de Assis
Sonone Luiz Franco Junqueira
Adelaide Pajuaba Nehme
José Moreira Filho
Enio Eustáquio Ferreira


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Resultado



Resultado do
I Concurso de Poesia 20 de Outubro
“REGINA DE SOUZA MARQUES ALMEIDA”

Poesia Vencedora:
O amor e o Português
Autor: Fernanda Rezende Ramos
Uberlândia – Minas Gerais

Menção honrosa:

Os Reis
Autor: Renata Paccola
São Paulo – SP


Alinhavos sem conchavos
Autor: Geraldo Trombim
Americana – SP

Allegro com Polaroid
Autor: Flávio Lanzarini
Rio de Janeiro – RJ

Pintura
Autor: Maria de Fátima de Barros Neves
Villenave  d’Ornon - França

Da vuvuzela à Beethoven
Autor: Denivaldo Piaia
Campinas – SP

Mãos Negras
Autor: Vânia Aparecida Melo Coelho Oliveira
Ituiutaba – MG

Pernambuquês
Autor: Camila Pereira dos Santos
Ituiutaba – MG

Arestas
Autor: Márcio Dison
Trindade – SC

O vestido
Autor: Reginaldo Costa de Albuquerque
Campo Grande – MS