
É com grande alegria que a ALAMI – Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba – chega à publicação do livro com os vencedores do VI Concurso Contos do Tijuco que, nesta edição homenagea o escritor Jair Humberto Rosa.
Muito Obrigado!
Presidente


A L A M I
Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba.
6º. Concurso Contos do Tejuco
“Jair Humberto Rosa”
2011.
Resultado:
Conto premiado –
* Sede
Autor - Caio Flávio Oliveira de Oliveira – São Gabriel – RS.
Contos Selecionados:
* Do outro lado da vidraça
Autor – Denivaldo Piaia – Campinas – SP.
* O dia em que Aristófanes tentou ser herói
Autor – Elroucian Ucayali Santos da Mota – Porto Alegre – RS.
* Átila, o Destruidor.
Autor – Gabriel Francisco de Mattos – Cuiabá – Mato Grosso
* Pé de meia na janela
Autor – Geraldo Trombin – Americana – SP
* A morte do poeta
Autor – Gilberto Garcia da Silva – Goio-Erê - Paraná
* Olhos Tristes
Autora – Giovanna Artigiane – Campinas – SP
* Vós pouco dais...
Maria Apparecida S. Coquemala – Itararé – SP
* INsensibilidade
Neusa Marques Palis – Pirangi – SP
* Maria Fumaça e Tronquilos na Praça
Autor – Schleiden Nunes Pimenta – Campinas - SP
- aguardem publicação do conto premiado.

ELETROCARDIOGRAMA
“O origami” de André Kondo é um conto composto de três partes distintas, mas interligadas pelo fio dos pássaros de papel. Linguagem acessível para o leitor com diálogos pertinentes e oportunos, sequência em linha curva no tempo parecendo gráfico de eletrocardiograma do narrador.
Desde o início a personagem Masao é mostrada em toda uma densidade, ou seja, maldade, como poderia pensar o leitor desavisado, uma vez que pena de morte é um prêmio valioso demais para um criminoso, assassino do genro e da filha e até atentado contra a vida da netinha, como narram os segundo e terceiro parágrafos. Masao é descrito como um homem cruel que chutava cães, atirava pedras em pássaros, inclusive no sagrado tsuru, um símbolo nacional, repelia a companhia de qualquer ser vivo. As descrições na primeira parte do conto servem para justificar o senso comum, reunido no bar.
O senso comum pode estar bêbado, porém sabe condenar, à vida miserável dos mais abjetos adjetivos, a alguém para quem a morte seria algo brando demais. O saquê, potente bebida alcoólica, move menos os pensamentos, todavia desloca palavras carregadas e inquiridoras que batem umas nas outras na perseguição de razões para as imbecilidades de Masao.
De repente a narrativa dá uma guinada. Um forasteiro, que se apresenta como conhecido do vilão se intromete nas discussões embriagadas. A tudo que afirma as bocas do “saquê quente” retrucam com desprezo e desdém. Quando finalmente pôde falar informou que Masao quase matou o próprio pai, mas remendou que isso iria acontecer para defender a mãe do pai bêbado – ele seguidamente agredia a mãe de Masao e um dia a matou sem que o filho o pudesse impedir. Nunca se perdoou, odiou o pai para sempre e a si mesmo por esse ódio voraz. O forasteiro inquire aos presentes se também já não cometeram injustiças por influência da bebida. Atinge a consciência da maioria deles. Pergunta ainda se algum deles já tentou se aproximar de Masao. Recebe como resposta a justificativa de que ele aceita ninguém. O homem acrescenta que todos nós temos uma força grande para transformar a vida das outras pessoas. No tempo em que falava dobrava um origami em tsuru de papel, depois em sapo e novamente em tsuru. No final desamassa o papel e sai.
O conto entra na segunda parte com a visita do forasteiro a casa onde mora Naomi, a netinha de Masao. Fala com ela e ensina-lhe, a pedido dela, como fazer tsurus. Explica-lhe que quem faz mil tsurus tem direito a um pedido. O narrador revela que o forasteiro é o irmão mais novo de Masao, tio-avô de Naomi.
A genialidade de André Kondo se mostra em toda a plenitude quando o narrador inicia a terceira parte do conto. Inicialmente Masao refuta a visita do irmão na prisão. O leitor surpreende-se ao saber que o mal falado criminoso apenas assumiu o papel de assassino. A revelação de que o genro de Masao envenenou a esposa e a filha e depois se suicidou, tendo Naomi, milagrosamente, sobrevivido, mostra uma técnica narrativa digna dos grandes mestres no gênero do conto. Masao apresentara-se como o assassino, querendo que Naomi nunca tivesse de sentir o ódio ao pai que ele mesmo vivera. Kondo sabe ser sublime quando faz Naomi falar com Masao chamando o de Ditchan (vovozinho). E acentua toda sua sensibilidade ao descrever o diálogo entre as duas personagens e a entrega de mil tsurus de papel alinhados em vários cordões. A revelação de que fez o pedido permitido por fazer mil tsurus, e este pedido ser para Masao se tornar uma pessoa boa, mostra como a dureza dos pré-julgamentos pode ter um oposto, a leveza das ideias de uma criança a dar asas a tsurus de papel e à alma de um homem na miséria existencial.
A leitura de “O origami” remete aos dramas que os vícios podem provocar nas pessoas, às tragédias que álcool e ciúme desencadeiam, ao ódio a que o coração se submete e à esperança que um simples gesto inocente de bondade consegue restabelecer. A trama simples, porém imprevisível, mostra a capacidade do autor de sustentar o interesse do leitor e de até comovê-lo.
Um conto bem escrito como este de André Kondo tem a capacidade, não somente de prender o leitor do início ao final, como sabe surpreender a tal ponto que ele se sinta enganado, mas feliz com esse engano.
“O origami” candidata-se a figurar entre os melhores contos escritos no século XXI e não fica devendo aos expoentes dos criadores de narrativas curtas.
Roque Aloisio Weschenfelder