MEU PATRONO
Recebeu o Premio Mérito Cultural 2010 como o melhor discurso do ano
concedido pela Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba.
Meu patrono
Marco Túlio Faissol Tannús
Discurso de posse na Academia de Letras Artes e Música de Ituiutaba --- ALAMI.
Ituiutaba, 20/08/2010
Meu coração bateu forte quando soube de minha aceitação como membro da Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba, a ALAMI. Não pensei que seria assim. Mas as pernas bambearam e as mãos tremeram.
Por que somos tão fracos e tolos? Não sou tolo. Não somos tolos. Tolo de mim se acreditasse que esta honra com que hoje me cumulam não seria o que verdadeiramente é: voto de confiança e chamado à responsabilidade.
Voto de confiança pela antevisão do que, sinceramente, não sou, mas, por isso mesmo, posso vir a tornar-me. Voto de confiança porque, pouco me conhecendo, crêem ver em mim alguma esperança para as letras. Voto de confiança porque os que em breve tratar-me-ão por colega, são, antes de tudo, uns crédulos.
Crédulos e ingênuos, benevolentes e amigos. Mas rigorosos por desejarem maior a minha responsabilidade de aprimorar a escrita, de escolher melhor as palavras, de atentar bem menos contra nossa língua mãe. A última flor do lácio, inculta e bela, a um só tempo, esplendor e sepultura.
Se Bilac é excessivo, sempre belo é ouvi-lo.
Mas coube a mim escolher um patrono. E dele falar. Justificar porque é, para mim importante, sendo importante, também, para a arte a que, presume-se, me entrego.
Vacilei, titubeei, tergiversei, amarelei. Quem seria meu patrono?
Cheguei a pensar em uma figura controversa, para causar algum frisson. O calmo Ênio ouviu-me as intenções com um semblante absolutamente impassível. Ruminante, até.
E fez-me perceber, sem que uma só palavra dissesse, que casa de amigos não se escandaliza, preserva-se.
Mas quem? Quem seria meu patrono?
Cogitei Fernando Sabino: mestre dos contos e crônicas. Aqulele escritor que me acompanha desde a mais tenra idade. Que me fez emocionar com o encontro marcado e me fez delirar com as aventuras de Viramundo.
Porém, Sabino não seria, porque outro, antes de mim o capturara. Shame on him.
Seria Rubem Braga, o senhor das crônicas? Não. Não se fica à vontade ao lado de reis.
Até que Drummond veio-me à mente . O Carlos dos contos de aprendiz. O Carlos das poesias simples e magras como ele. O Carlos da sublime emoção contida.
Ele também é rei. Não se fica à vontade ao lado de reis. Mas há, na sua obra, um que de pé no chão, de elegância simples que nos deixa à vontade como na casa de avós.
Cabe a mim apresentá-lo. Não sei se tolice, ou arrogância. Para apresentar Drummond, basta lê-lo.
Todavia, para não fugir à minha responsabilidade, eis aqui o que consegui mal traduzir da minha grande admiração por esse poeta da vida quotidiana.
Quem é o meu patrono?
Sujeito magro e longe de mim,
que como eu usa óculos
e no topo do coco cultiva uma calva.
Tão perto e tão longe,
mais longe que perto.
Quem é meu patrono?
Que não me conhece,
mas conhece os homens,
as mulheres conhece,
conhece essa terra.
Conhece Minas
pois dela perdeu-se.
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
E agora, José?
Quem é meu patrono?
Esse homem sereno que espera
na beira do mar de Copacabana.
Roubam-lhe os óculos dia após dia,
mas mesmo sem eles enxerga o mundo
com total perfeição.
Enxerga o mar nos olhos da amante,
enxerga pernas e braços,
bigodes e óculos perdidos no bonde.
Não sei se é José,
ou Raimundo.
Não sei se é apenas rima,
ou se seria solução.
Só sei que quando nasceu, um anjo torto,
desses que vivem na sombra,
disse-lhe: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.
Quem é meu patrono?
Que fala dos povos,
que fala dos Turcos que Turcos não são.
São Sírios oprimidos por Turcos cruéis.
Que são em Minas e vendem a seda
e a visão de Paris por uns poucos mil-réis.
Quem é meu patrono?
Que tece destinos,
que mistura destinos,
que vive destinos.
Que conta histórias de encontros
e descaminhos.
Que fala de João,
que amava Tereza,
que amava Raimundo,
que amava Maria,
que amava Joaquim,
qua amava Lili,
que não amava ninguém,
mas casou-se com J. Pinto Fernandes,
que não tinha, ainda, entrado na história.
Quem é meu patrono?
Que faz troça com a cidade
e com seus moradores.
Amontoados de carne e ossos
que não vivem, habitam.
As famílias se fecham
em células estanques.
O elevador sem ternura
expele, absorve
num ranger monótono
substância humana.
Entretanto há muito
se acabaram os homens.
Ficaram apenas
tristes moradores.
Quem é meu patrono?
Senão quem cria e inventa
novos termos e novas palavras.
Que inventa e cria novas definições
para palavras antigas.
Que junta palavras num baile
de infinita simplicidade.
Que chove sobre nós nossa lenta agonia.
A chuva me irritava. Até que um dia
descobri que maria é que chovia.
A chuva era maria. E cada pingo
de maria ensopava o meu domingo.
Eu era todo barro, sem verdura...
maria, chuvosíssima criatura!
Não me chovas, maria, mais que o justo
chuvisco de um momento, apenas susto.
Não me inundes de teu líquido plama,
não sejas tão aquático fantasma!
Eu lhe dizia --- em vão --- pois que maria
quanto mais eu rogava, mais chovia.
E chuveirando atroz em meu caminho,
o deixava banhado em triste vinho,
que não aquece, pois água de chuva
mosto é de cinza, não de boa uva.
Chuvadeira maria, chuvadonha,
chuvinhenta, chuvil, pluvimedoinha!
Eu lhe gritava: Pára! E ela, chovendo,
poços d'água gelada ia tecendo.
Choveu tanto maria em minha casa
que a correnteza forte criou asa
e um rio se formou, ou mar, não sei,
sei apenas que nele me afundei.
E quanto mais as ondas me levavam,
as fontes de maria mais chuvavam,
e era o mundo molhado e sovertido
sob aquele sinistro e atro chuvido.
Anti-petendam cânticos se ouviram.
Que nada! As cordas d'água mais deliram,
e maria, torneira desatada,
mais se dilata em sua chuvarada.
Os navio soçobram. Continentes
já submergem com todos os viventes,
e maria chovendo. Eis que a essa altura,
delida e fluida a humana enfibratura,
e a terra não sofrendo tal chuvência,
comoveu-se a Divina Providência,
e Deus, piedoso e enérgico, bradou,
Não chove mais, maria! --- e ela parou.
Quem é meu patrono?
Meu patrono não deseja fugir.
No máximo, quer voltar a Itabira.
Quem quer fugir é o Bandeira,
que brada com os pulmões que lhe restam:
Vou-me embora pra Passárgada,
pois lá sou amigo do rei.
Terei as mulheres que quero,
na cama que escolherei.
Meu patrono é gente.
É sincero, verdadeiro.
Mas não é o Fernando Pessoa
que crê que
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
que chegua a fingir que é dor
a dor que deveras sente.
Meu patrono é cantor e é amigo.
Meu patrono é poeta e é amigo.
Meu patrono é inventor e é amigo.
Meu patrono inventa, escreve e canta
a canção amiga.
Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
Meu patrono é um sujeito magro
e de mim é muito distante.
Como eu, usa óculos e cultiva uma calva.
Tão perto e tão longe, mais longe que perto.
Meu patrono não me conhece e eu não o vejo.
Mas eu sinto como que me conhecesse.
Inventa e escreve palavras.
Quem sabe, um dia, eu também escreverei,
como ele, a poesia de uma vida inteira.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
sábado, 8 de janeiro de 2011
Resultado do Concurso Contos do Tejuco - 2.010
imagem ilustrativa:quadro de Enio Ferreira
"Mar adentro"-
A L A M I
Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba.
alamiacademia@yahoo.com.br
http://www.alami.xpg.com.br/
5º. Concurso Contos do Tejuco
“Maria Adelina Vieira Cardoso e Gomes”
RESULTADO:
Comissão Julgadora:
Adriana Alves Moraes de Souza
Professora Mestre em Língua Portuguesa FEIT-UEMG
Ana Karollina Ramos da Silva
Licenciada em Letras FEIT-UEMG
Kênia de Souza Oliveira
Professora Especialista em Língua Portuguesa FEIT-UEMG
Conto vencedor:
“O origami” – Autor: André Telucazo Kondo – Jundiaí – SP.
Contos selecionados: Menção Honrosa.
“O todo-poderoso” – Idalina Duarte Guerra – Niterói – RJ.
“O príncipe” – Raphael de O. Reis – Juiz de Fora – MG.
“A passageira” – Valéria Mares Álvares – Belo Horizonte – MG.
“Pré-natal” – Tatiana Alves Soares Caldas – Rio de Janeiro – RJ.
“O vizinho e o Sputnik” – Roque A. Weschenfelder – Sta. Rosa - RS
“O assessor” – Maria Apparecida. S. Coquemala – Itararé – SP.
“A roupa nº. 3” – Adilar Signore – Canoas R. S.
“A menina, sua figura estranha e um mísero instante” – Thais Polidoro - Marilia – SP.
“A carta” – Whisner Fraga – Ituiutaba – MG
Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba.
alamiacademia@yahoo.com.br
http://www.alami.xpg.com.br/
5º. Concurso Contos do Tejuco
“Maria Adelina Vieira Cardoso e Gomes”
RESULTADO:
Comissão Julgadora:
Adriana Alves Moraes de Souza
Professora Mestre em Língua Portuguesa FEIT-UEMG
Ana Karollina Ramos da Silva
Licenciada em Letras FEIT-UEMG
Kênia de Souza Oliveira
Professora Especialista em Língua Portuguesa FEIT-UEMG
Conto vencedor:
“O origami” – Autor: André Telucazo Kondo – Jundiaí – SP.
Contos selecionados: Menção Honrosa.
“O todo-poderoso” – Idalina Duarte Guerra – Niterói – RJ.
“O príncipe” – Raphael de O. Reis – Juiz de Fora – MG.
“A passageira” – Valéria Mares Álvares – Belo Horizonte – MG.
“Pré-natal” – Tatiana Alves Soares Caldas – Rio de Janeiro – RJ.
“O vizinho e o Sputnik” – Roque A. Weschenfelder – Sta. Rosa - RS
“O assessor” – Maria Apparecida. S. Coquemala – Itararé – SP.
“A roupa nº. 3” – Adilar Signore – Canoas R. S.
“A menina, sua figura estranha e um mísero instante” – Thais Polidoro - Marilia – SP.
“A carta” – Whisner Fraga – Ituiutaba – MG
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Baile de amor e vida
ALAMI
Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba
4º. Concurso de Resenhas " Bruno de Souza Moreira"
2.010. O objeto a ser resenhado é o conto "ANDREIA", conto premiado
no "4º. Concurso Contos do Tejuco"
O conto está disponível no site da Academia:
www.alami.xpg.com.br
Resenha Vencedora:
BAILE DE AMOR E VIDA
ANDRÉIA vem com uma introdução em que o narrador justifica sua situação antes de contar as vivências. Prossegue falando da paixão dela pelo que fazia em prol de pessoas por quem mais ninguém se interessa. Conta o episódio da proteção de um adolescente prestes a ser linchado por crime cometido. Ressalta que ela era assim quando se envolvia com causa justa. Ressalta o fato de ela ser heroína e vilão de sua história. Sempre foi adepta da militância política desde os tempos da faculdade, resumindo ter incorporado filosofias de Trotsky, ter demorado a concluir o curso, ter participado de reuniões clandestinas para incentivo a greves e manifestações de resistência.
E de repente o amor.
Agora o narrador abre um amplo parêntese para narrar o primeiro grande e fracassado amor dela. Não o fracasso do amor em si, mas do casamento com um militante, das dificuldades de moradia, do nascimento do filho que não consegue ser sustentado, da inevitável separação, do trabalho como modesta funcionária pública e do primeiro encontro entre ela e o narrador.
O conto segue relatando os encontros e desencontros iniciais, pinçados de inusitadas situações até acontecer o inolvidável: a dança.
A vida segue por muito tempo e a dança é o liame da união entre ambos. A dança percorre o mundo e a vida, cria os filhos, mantém a convivência até a chegada da velhice. Basta perguntar “Você dança” para que novas expectativas se criem.
De repente ela o deixa também e volta à antiga militância, mas em outras situações, passa um tempo até que se comunica para contar o que faz e para perguntar: “Você dança”?
Ele comemora oitenta anos, bem conservado, e quando lhe perguntam a razão ele responde que precisa estar bem para dançar quando ela voltar.
...
O conto Andréia na verdade parece uma novela, quase romance, pois retrata um episódio longo no tempo. Fica na esfera do conto pelo fato de que pode ser dimensionado como um momento de lembrança no dia do octogésimo aniversário do narrador-personagem.
O autor Bruno de Souza Moreira usa de tópicos de literalidade muito intensos e interessantes, quando insere vários paradoxos: “fazer as coisas que estavam dando certo, caminharem em sentido errado.”; abandono de parceiros levados a um evento; apoio na hora da separação. No parêntese que cria, narra a história do amor de Andréia, presumivelmente contado por ela sem, no entanto, mencionar isso. Ela se apaixona pelo primeiro amor na hora de um discurso inflamado do homem, ela se apaixona pelo narrador na hora de um discurso de bar. O primeiro amor sofre muitos percalços e acaba (aparentemente) por necessidade de criar o filho; o segundo amor vive a vida de família com vários filhos na prosperidade (sítio). Como cabe num bom conto, apenas de leve são focadas as situações econômicas, mas intensamente, as vivências emocionais. As descrições restringem-se a detalhes, um pouco mais sobre ela: principalmente a beleza e a insinuação da sensualidade; sobre o primeiro marido: um oriental, japonês; sobre o narrador-personagem: nada além da boa conservação na velhice.
A linguagem segue padrões formais, porém, é enfeitada por frases de efeito como: “pelos padrões ditados pelos objetivos comuns”; “Noites intermináveis regadas a Marx, Engels e vinho barato”; “as necessidades materiais da criança começaram a berrar”; “mas isso não matou, e sim o fortaleceu”. Infere forte sentido emocional à frase-pergunta: Você dança? Na primeira vez as indefinições se resolvem, na segunda, salva a relação em perigo, na terceira vez reanima a excitação e as lembranças enfraquecidas pela idade avançada e, na quarta, acende a esperança da volta, transformando-a em promessa impossível de ignorar. Discretamente o narrador mostra como a velhice afeta os sentidos: “O quê? Não ouvi!!” Prosopopeias e metáforas mesclam-se pelo texto afora, sem afetarem a perfeita perceptibilidade da narrativa na sua sequência temporal. A linha do tempo no conto segue a de um romance, diferindo, deste, pelo número restrito de personagens. A genialidade do autor reside também no fato de criar o triângulo amoroso pelas insinuações e sem citar se ela voltou ao seu primeiro amor (o japonês) ou se é realmente apenas a volta à militância política que pode estar confundindo os dois tópicos.
Mas a dança fica aberta. “Não para não, meu amor! Vai treinando, que um dia eu volto!” A dança dos amores, a dança dos parceiros abandonados em pleno show, a dança das lembranças, a dança dos militantes, a dança dos atributos dela, a dança que faz valsar o conto na imaginação do autor, a esperança e a promessa da volta dela, a dança que não acontece na festa do aniversário, mas que dança na mente fragilizada pela idade, não obstante a afirmação da boa forma corporal mantida.
...
ANDRÉIA é a mulher dos anos sessenta e setenta que o Brasil viveu. Ela não envelhece isso apenas ao seu amor mais estabilizado, representado pelo narrador-personagem. É uma visão masculina da força e decisão femininas capazes de suportar as agruras advindas do seguir de um ideal.
ANDRÉIA precisa voltar para dançar de novo, como dança a história, como dançam as mulheres de fibra, como dança a mãe em prol da vida e bem-estar dos filhos.
ANDRÉIA nunca envelhece porque ela fica sempre jovem, bela e sensual na memória.
ANDRÉIA sempre convence a si mesma e aos seus amores: o homem, a vida, o ideal...
Roque Aloisio Weschenfelder
Professor de Português e Literatura
Poeta, Cronista e Contista
Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba
4º. Concurso de Resenhas " Bruno de Souza Moreira"
2.010. O objeto a ser resenhado é o conto "ANDREIA", conto premiado
no "4º. Concurso Contos do Tejuco"
O conto está disponível no site da Academia:
www.alami.xpg.com.br
Resenha Vencedora:
BAILE DE AMOR E VIDA
ANDRÉIA vem com uma introdução em que o narrador justifica sua situação antes de contar as vivências. Prossegue falando da paixão dela pelo que fazia em prol de pessoas por quem mais ninguém se interessa. Conta o episódio da proteção de um adolescente prestes a ser linchado por crime cometido. Ressalta que ela era assim quando se envolvia com causa justa. Ressalta o fato de ela ser heroína e vilão de sua história. Sempre foi adepta da militância política desde os tempos da faculdade, resumindo ter incorporado filosofias de Trotsky, ter demorado a concluir o curso, ter participado de reuniões clandestinas para incentivo a greves e manifestações de resistência.
E de repente o amor.
Agora o narrador abre um amplo parêntese para narrar o primeiro grande e fracassado amor dela. Não o fracasso do amor em si, mas do casamento com um militante, das dificuldades de moradia, do nascimento do filho que não consegue ser sustentado, da inevitável separação, do trabalho como modesta funcionária pública e do primeiro encontro entre ela e o narrador.
O conto segue relatando os encontros e desencontros iniciais, pinçados de inusitadas situações até acontecer o inolvidável: a dança.
A vida segue por muito tempo e a dança é o liame da união entre ambos. A dança percorre o mundo e a vida, cria os filhos, mantém a convivência até a chegada da velhice. Basta perguntar “Você dança” para que novas expectativas se criem.
De repente ela o deixa também e volta à antiga militância, mas em outras situações, passa um tempo até que se comunica para contar o que faz e para perguntar: “Você dança”?
Ele comemora oitenta anos, bem conservado, e quando lhe perguntam a razão ele responde que precisa estar bem para dançar quando ela voltar.
...
O conto Andréia na verdade parece uma novela, quase romance, pois retrata um episódio longo no tempo. Fica na esfera do conto pelo fato de que pode ser dimensionado como um momento de lembrança no dia do octogésimo aniversário do narrador-personagem.
O autor Bruno de Souza Moreira usa de tópicos de literalidade muito intensos e interessantes, quando insere vários paradoxos: “fazer as coisas que estavam dando certo, caminharem em sentido errado.”; abandono de parceiros levados a um evento; apoio na hora da separação. No parêntese que cria, narra a história do amor de Andréia, presumivelmente contado por ela sem, no entanto, mencionar isso. Ela se apaixona pelo primeiro amor na hora de um discurso inflamado do homem, ela se apaixona pelo narrador na hora de um discurso de bar. O primeiro amor sofre muitos percalços e acaba (aparentemente) por necessidade de criar o filho; o segundo amor vive a vida de família com vários filhos na prosperidade (sítio). Como cabe num bom conto, apenas de leve são focadas as situações econômicas, mas intensamente, as vivências emocionais. As descrições restringem-se a detalhes, um pouco mais sobre ela: principalmente a beleza e a insinuação da sensualidade; sobre o primeiro marido: um oriental, japonês; sobre o narrador-personagem: nada além da boa conservação na velhice.
A linguagem segue padrões formais, porém, é enfeitada por frases de efeito como: “pelos padrões ditados pelos objetivos comuns”; “Noites intermináveis regadas a Marx, Engels e vinho barato”; “as necessidades materiais da criança começaram a berrar”; “mas isso não matou, e sim o fortaleceu”. Infere forte sentido emocional à frase-pergunta: Você dança? Na primeira vez as indefinições se resolvem, na segunda, salva a relação em perigo, na terceira vez reanima a excitação e as lembranças enfraquecidas pela idade avançada e, na quarta, acende a esperança da volta, transformando-a em promessa impossível de ignorar. Discretamente o narrador mostra como a velhice afeta os sentidos: “O quê? Não ouvi!!” Prosopopeias e metáforas mesclam-se pelo texto afora, sem afetarem a perfeita perceptibilidade da narrativa na sua sequência temporal. A linha do tempo no conto segue a de um romance, diferindo, deste, pelo número restrito de personagens. A genialidade do autor reside também no fato de criar o triângulo amoroso pelas insinuações e sem citar se ela voltou ao seu primeiro amor (o japonês) ou se é realmente apenas a volta à militância política que pode estar confundindo os dois tópicos.
Mas a dança fica aberta. “Não para não, meu amor! Vai treinando, que um dia eu volto!” A dança dos amores, a dança dos parceiros abandonados em pleno show, a dança das lembranças, a dança dos militantes, a dança dos atributos dela, a dança que faz valsar o conto na imaginação do autor, a esperança e a promessa da volta dela, a dança que não acontece na festa do aniversário, mas que dança na mente fragilizada pela idade, não obstante a afirmação da boa forma corporal mantida.
...
ANDRÉIA é a mulher dos anos sessenta e setenta que o Brasil viveu. Ela não envelhece isso apenas ao seu amor mais estabilizado, representado pelo narrador-personagem. É uma visão masculina da força e decisão femininas capazes de suportar as agruras advindas do seguir de um ideal.
ANDRÉIA precisa voltar para dançar de novo, como dança a história, como dançam as mulheres de fibra, como dança a mãe em prol da vida e bem-estar dos filhos.
ANDRÉIA nunca envelhece porque ela fica sempre jovem, bela e sensual na memória.
ANDRÉIA sempre convence a si mesma e aos seus amores: o homem, a vida, o ideal...
Roque Aloisio Weschenfelder
Professor de Português e Literatura
Poeta, Cronista e Contista
sábado, 4 de dezembro de 2010
resultado dos concursos
aguardem para breve o resultado para o
Concurso Contos do Tijuco 2010
abraços.
Concurso Contos do Tijuco 2010
abraços.
domingo, 15 de novembro de 2009
sábado, 14 de novembro de 2009
Contando o fechamento de um circuito
ALAMI
Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba
3.º Concurso de Resenhas " Neusa Marques Palis"
O objeto da resenha é o conto "Por muitos séculos. Amém!
o conto pode ser lido no site: www.alami.xpg.com.br
Resenha vencedora:
CONTANDO O FECHAMENTO DE UM CIRCUITO
Autora: Nelsi Inês Urnau - cidade de Canoas - RS.
O conto “Por muitos séculos. Amém!”, de autoria de Neusa Marques Palis, objeto do terceiro Concurso de resenhas da ALAMI foi laureado com o prêmio “João Corrêa de Almeida” no 3º Concurso de Contos do Tijuco (2008), promovido pela mesma Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba.
“Por muitos séculos. Amém!” narra uma reunião de família que ocorre numa fazenda para onde acorrem filhos e cônjuges com suas proles, convocados intempestivamente pela matriarca que, no entanto, não deu a conhecer os motivos dessa extraordinariedade. Conforme os mesmos vão se encontrando e falando, as razões vão sendo conhecidas de modo indireto através das referências a outros fatos que são sinalizados pelos interlocutores. Valzinho, o narrador, é um dos participantes da história que relata o episódio a partir de suas impressões.
Sob a epígrafe de Sartre – “Metade vítimas, metade cúmplices, como todo mundo” – a autora descortina o desenrolar de um episódio familiar na voz de um menino de doze anos, um dos personagens da história. Narrado em primeira pessoa, Palis empresta ao enredo um aspecto de verossimilhança coerente e próprio dos grandes mestres das artes literárias. Isto, porque, apesar de parecer, a primeira vista, um relato autobiográfico, reveste-se de um ar de onisciência poética sobre os perfis e estados de espírito dos demais personagens envolvidos na trama.
Num estilo direto e de linguagem simples sem ser chula, a narrativa se assemelha a um relato nervoso prestado a um delegado por uma vítima de crime, um sem par de acontecimentos concentrados em curto espaço de tempo e lugar, todavia abarcando diversos espaços e tempos através das falas dos protagonistas. Deste modo, a cada personagem que se expressa, a autora remete a outros episódios ocorridos em outras épocas e lugares sem, no entanto, ser necessário incluí-los no enredo. Ela os sugere de um modo peculiar através das referências que os personagens fazem no intercalar de diálogos, opiniões e conversas interrompidas.
Magistralmente Palis vai conduzindo o leitor no desenrolar do conflito evidente, provocando tensão através de um viés literário que liga todos os personagens entre si. Destacando sobre todos a figura de uma somente – Matilde – sobre esta cria a expectativa de desvendar o mistério. Conforme vão se encadeando as participações dos diversos envolvidos na trama, vai-se formulando uma idéia do que possa ser o ponto alto do enredo que, entretanto não é mencionado. E quando o mesmo parece na eminência de desencadear-se, abre-se uma infinidade de possibilidades de desfecho que a autora deixa em aberto, encerrando sua participação e deixando a imaginação do leitor navegar pelas diversas hipóteses a criar e escolher o final que lhe aprouver.
Porém, retomando o título numa percepção mais profunda, o final que Palis sugere encontra-se no mesmo: e tudo voltou a ser como antes, e assim continuou “por muitos séculos. Amém!”, como se nada tivesse acontecido. Era o fechamento de um circuito numa espiral que se repete e se recria infinitamente.
Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba
3.º Concurso de Resenhas " Neusa Marques Palis"
O objeto da resenha é o conto "Por muitos séculos. Amém!
o conto pode ser lido no site: www.alami.xpg.com.br
Resenha vencedora:
CONTANDO O FECHAMENTO DE UM CIRCUITO
Autora: Nelsi Inês Urnau - cidade de Canoas - RS.
O conto “Por muitos séculos. Amém!”, de autoria de Neusa Marques Palis, objeto do terceiro Concurso de resenhas da ALAMI foi laureado com o prêmio “João Corrêa de Almeida” no 3º Concurso de Contos do Tijuco (2008), promovido pela mesma Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba.
“Por muitos séculos. Amém!” narra uma reunião de família que ocorre numa fazenda para onde acorrem filhos e cônjuges com suas proles, convocados intempestivamente pela matriarca que, no entanto, não deu a conhecer os motivos dessa extraordinariedade. Conforme os mesmos vão se encontrando e falando, as razões vão sendo conhecidas de modo indireto através das referências a outros fatos que são sinalizados pelos interlocutores. Valzinho, o narrador, é um dos participantes da história que relata o episódio a partir de suas impressões.
Sob a epígrafe de Sartre – “Metade vítimas, metade cúmplices, como todo mundo” – a autora descortina o desenrolar de um episódio familiar na voz de um menino de doze anos, um dos personagens da história. Narrado em primeira pessoa, Palis empresta ao enredo um aspecto de verossimilhança coerente e próprio dos grandes mestres das artes literárias. Isto, porque, apesar de parecer, a primeira vista, um relato autobiográfico, reveste-se de um ar de onisciência poética sobre os perfis e estados de espírito dos demais personagens envolvidos na trama.
Num estilo direto e de linguagem simples sem ser chula, a narrativa se assemelha a um relato nervoso prestado a um delegado por uma vítima de crime, um sem par de acontecimentos concentrados em curto espaço de tempo e lugar, todavia abarcando diversos espaços e tempos através das falas dos protagonistas. Deste modo, a cada personagem que se expressa, a autora remete a outros episódios ocorridos em outras épocas e lugares sem, no entanto, ser necessário incluí-los no enredo. Ela os sugere de um modo peculiar através das referências que os personagens fazem no intercalar de diálogos, opiniões e conversas interrompidas.
Magistralmente Palis vai conduzindo o leitor no desenrolar do conflito evidente, provocando tensão através de um viés literário que liga todos os personagens entre si. Destacando sobre todos a figura de uma somente – Matilde – sobre esta cria a expectativa de desvendar o mistério. Conforme vão se encadeando as participações dos diversos envolvidos na trama, vai-se formulando uma idéia do que possa ser o ponto alto do enredo que, entretanto não é mencionado. E quando o mesmo parece na eminência de desencadear-se, abre-se uma infinidade de possibilidades de desfecho que a autora deixa em aberto, encerrando sua participação e deixando a imaginação do leitor navegar pelas diversas hipóteses a criar e escolher o final que lhe aprouver.
Porém, retomando o título numa percepção mais profunda, o final que Palis sugere encontra-se no mesmo: e tudo voltou a ser como antes, e assim continuou “por muitos séculos. Amém!”, como se nada tivesse acontecido. Era o fechamento de um circuito numa espiral que se repete e se recria infinitamente.
4º. Concurso Contos do Tejuco "José Maria Franco de Assis"
A L A M I
Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba
Avenida 17, 1.251
Ituiutaba – Minas Gerais
IV Concurso Contos do Tejuco
José Maria Franco de Assis
2009
RESULTADO
Comissão Julgadora
- Wania Majadas
Doutorado em teoria de literatura
Crítica literária e ensaísta –
Goiânia – GO
- Marina Gomide
Professora especialista
Uberlândia – MG
- Tereza Bezerra Martins
Graduada em Letras e Direito
Ituiutaba – MG
Conto vencedor
ANDRÉIA
Autor: Bruno de Souza Moreira – Cidade do Rio de Janeiro
Contos selecionados – Menção honrosa:
A moeda prometida –
Autor: Gabriel Araújo dos Santos – cidade de Serro – MG
A peste –
Autor: Diogo Silva Vilela – cidade de Ituiutaba – MG
Safári –
Autor: Whisner Fraga – cidade de Ituiutaba – MG
O colecionador de palavras –
Autor: Emerson Mário Destefani – cidade de Indianópolis – Paraná
Para dar uma boa impressão –
Autor: Marinaldo Alves de Lima – cidade de Olinda – PE
Jogo dos Reis –
Autor: Valéria Mares Álvares – cidade de Belo Horizonte – MG
B.V.N.E. –
Autor: Arnaldo Pereira da Silva Junior – cidade de Sete Lagoas – MG
Loteria –
Autor: Berenice Rheinheimer – cidade de Porto Alegre – RS
Maktub –Autor: Maria Apparecida S. Coquemala – cidade de Itararé –
Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba
Avenida 17, 1.251
Ituiutaba – Minas Gerais
IV Concurso Contos do Tejuco
José Maria Franco de Assis
2009
RESULTADO
Comissão Julgadora
- Wania Majadas
Doutorado em teoria de literatura
Crítica literária e ensaísta –
Goiânia – GO
- Marina Gomide
Professora especialista
Uberlândia – MG
- Tereza Bezerra Martins
Graduada em Letras e Direito
Ituiutaba – MG
Conto vencedor
ANDRÉIA
Autor: Bruno de Souza Moreira – Cidade do Rio de Janeiro
Contos selecionados – Menção honrosa:
A moeda prometida –
Autor: Gabriel Araújo dos Santos – cidade de Serro – MG
A peste –
Autor: Diogo Silva Vilela – cidade de Ituiutaba – MG
Safári –
Autor: Whisner Fraga – cidade de Ituiutaba – MG
O colecionador de palavras –
Autor: Emerson Mário Destefani – cidade de Indianópolis – Paraná
Para dar uma boa impressão –
Autor: Marinaldo Alves de Lima – cidade de Olinda – PE
Jogo dos Reis –
Autor: Valéria Mares Álvares – cidade de Belo Horizonte – MG
B.V.N.E. –
Autor: Arnaldo Pereira da Silva Junior – cidade de Sete Lagoas – MG
Loteria –
Autor: Berenice Rheinheimer – cidade de Porto Alegre – RS
Maktub –Autor: Maria Apparecida S. Coquemala – cidade de Itararé –
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